Artigo: Bancos, Bancários e Identidades: pertencimento à empresa ou pertencimento de classe? *Por Silvio Kanner

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*Por Silvio Kanner

O termo “identidade” tem sido associado, no debate recente, a processos políticos e de mobilizações. A ideia geral é de que a formação de identidades coletivas é um dos fatores que explicam a força dos movimentos. Nesse caso, as identidades são tomadas como dinâmicas, como resultados de confrontos de ações e narrativas, e não se referem apenas ao que um indivíduo pensa sobre si, mas como os outros o veem e o percebem. Isso marca também dois outros níveis da questão: a definição de um lugar social e a definição de suas atitudes diante do mundo.

Se a identidade é algo dinâmico e define lugares sociais e atitudes, inclusive, e, principalmente atitudes políticas (de que lado do poder você vai se posicionar), parece óbvio que ela pode ser objeto de estratégias de poder. É exatamente isso que tem feito os Bancos, com a omissão cúmplice do sindicalismo hegemônico. À sua iniciativa ideológica para dentro os Bancos atribuem o nome de “endomarketing” e seu objetivo é fortalecer o sentimento de pertencimento à empresa. O objetivo é deslocar o eixo da subjetividade do empregado de “trabalhador/categoria” para “colaborador/empresa”.

Nesse processo novos termos são gerados, nova narrativa é construída e novos espaços de socialização são criados. Isso é ideologia na veia. O indivíduo não pertence mais a uma categoria de trabalhadores que vendem sua força de trabalho para uma empresa cujo objetivo último e supremo é o lucro, e para a qual ele não passa de um número, uma coisa ou uma despesa no fim do mês. A ele é vendida a imagem de um colaborador (quem colabora o faz voluntariamente) de uma empresa que tem uma missão (geralmente travestida de nobre) e um papel social relevante. Ao assumir esses pressupostos, o trabalhador passa a se identificar com o sucesso da empresa e a incorporar a competitividade entre empresas no mercado, e entre indivíduos na empresa em que trabalha. A competitividade destrói os laços de solidariedade de classe e os eventos com empresas de treinamento e “coaching” cimentam tudo isso numa personalidade que passa a se vestir, se portar e se posicionar de forma diferente diante da experiência do mundo. Nasce um trabalhador individualista, insensível para os problemas dos colegas e, acima de tudo, adversário do sindicato, visto como um organismo que prejudica a empresa, a sua empresa.

Nos Bancos Estatais, onde todos entram por seleção pública (concurso), aqueles que ascendem a cargos de gestão elevados experimentam um nível superior dessa ideologia, eles se acham patrões: oprimem, esmagam, pisam e humilham os próprios colegas de trabalho, muitos dos quais eram seus amigos quando estavam “por baixo”.

O mais impressionante é que isso ocorre numa materialidade de enormes dificuldades de vida para a maioria dos bancários, baixa remuneração, custos de vida elevados, frustrações pessoais e pressão pelo atingimento das metas da empresa. As metas da empresa passam a ser do indivíduo, e ele gosta disso. Muito embora em algum momento haja frustração porque a empresa vai demonstrar mais cedo ou mais tarde que aquele indivíduo não é nada mais que uma despesa mensal e, nesse momento, na maioria dos casos, advém a depressão.

Não ganhamos nada com o lucro exorbitante dos Bancos, aliás, esse lucro indica que estamos perdendo, não ganhamos nada pensando ser o que não somos. Nossa verdade é que somos TRABALHADORES, que vedemos nossa força de trabalho por um salário, que, na maioria dos casos é apenas o suficiente para sobrevivermos num nível de vida médio e que nunca seremos ricos. Retomar nosso pertencimento de categoria, nossa solidariedade de classe e, superar nosso individualismo é um bom início para termos uma experiência lúcida e sóbria com a empresa na qual trabalhamos hoje e para mudar nossas atitudes diante dos nossos problemas e das entidades coletivas.

Sindicatos e associações, por mais que alguns estejam em rumos duvidosos, são as nossas verdadeiras instituições, aqueles que são formadas por nós e comandadas por nós e que, certamente, mudariam muito se todos os trabalhadores participassem de forma assídua e bem informada.

Não somos donos das empresas, somos apenas sua força de trabalho e devemos sempre lembrar a todos, que sem força de trabalho não há empresa, não há lucro e não há capital.

Nos opor às entidades coletivas é nos opor a nós mesmos!

 

* Silvio Kanner é Coordenador da Oposição Bancária do Pará e diretor da AEBA.

 

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