Artigo: O privilégio da servidão

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Ricardo Antunes, em seu livro O Privilégio da Servidão, argumenta que longe da tese defendida nos anos 80 do fim do trabalho, em função do desenvolvimento de novas tecnologias, “estamos vivenciando o crescimento exponencial do novo proletariado de serviços, uma variante global de que se pode denominar escravidão digital. Em pleno século XXI.”

 

Para Antunes, na atual lógica capitalista “de um lado deve existir a disponibilidade perpétua para o labor, facilitada pela expansão do trabalho on-line e dos ‘aplicativos’ … do outro, expande-se a praga da precariedade total, que surrupia ainda mais os direitos vigentes. Se essa lógica não for radicalmente confrontada e obstada, os novos proletários dos serviços se encontrarão entre uma realidade triste e outra trágica: oscilação entre o desemprego completo e na melhor das hipóteses, a disponibilidade para tentar obter o privilégio da servidão”.

A implementação de novas tecnologias, que deveria servir para o desenvolvimento humano, diminuindo as desigualdades sociais e tornando o trabalho mais prazeroso e menos adoecedor, dentro da lógica perversa do capitalismo, tem servido para o descarte de trabalhadores e o aumento da exclusão social.

Assim observamos milhões de trabalhadores na informalidade, fazendo trabalho remoto, terceirizados, sem seus direitos básicos assegurados. Essa situação exige novas formas de organização e de lutas para enfrentar a barbárie capitalista.

Com a pandemia covid-19, intensificou a atividade remota e o trabalho de entrega de produtos, onde um dos segmentos mais explorados ganha maior visibilidade pela sua importância, que são os entregadores de aplicativos. São eles que muitas vezes trabalham com fome entregando comida para a população. Dia 01 de julho no Brasil inteiro eles organizaram uma greve com a participação de milhares de trabalhadores.

A centralidade do trabalho como defendeu Marx, continua atual, o que precisamos é lutar pelo trabalho digno e decente e nos livrar como enfatiza Ricardo Antunes de uma “realidade triste e outra trágica”, “o desemprego completo” ou o “privilégio da servidão”.
*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ

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