Por Fernando Castelo Branco, no O Povo
A violência contra a mulher não é um desvio individual ou episódico: é constitutiva da nossa sociabilidade. Estrutural, porque se ancora em relações históricas de poder que naturalizam a inferiorização da mulher; estruturante, porque organiza práticas, instituições e mentalidades que reproduzem essa desigualdade todos os dias.
Os números falam por si: 3,7 milhões de mulheres violentadas em 2025. É preciso dizer sem rodeios: toda mulher brasileira já sofreu ou conhece outra que sofreu violência – física, sexual, psicológica, política, patrimonial, moral ou vicária.
Esse cenário é sustentado por um discurso político que o legitima. A extrema-direita colabora ativa e conscientemente para a manutenção dessa ordem ao defender ideias que naturalizam a desigualdade de gênero. Não são raros os episódios em que lideranças relativizam a violência, inclusive a sexual, defendem salários inferiores ou reafirmam a submissão feminina. Muitas vezes misturando proselitismo político e religioso para defender o indefensável.
Mas o tema só ganhou o lugar que hoje tem no debate público porque o Brasil construiu avanços. A partir de 2006, a Lei Maria da Penha inaugurou um novo paradigma: medidas protetivas, reconhecimento da violência doméstica como violação de direitos humanos e ampliação da rede de proteção.
Depois, o Código Penal foi reformado para redefinir o crime de estupro e para tipificar o feminicídio. Mais recentemente, a legislação eleitoral passou punir a violência política de gênero. Todas essas conquistas, registre-se, têm data, contexto e autoria: são fruto de políticas públicas de governos populares de centro-esquerda.
Cada avanço resulta de décadas de luta das mulheres, produzindo uma contracultura que tensiona práticas naturalizadas e inaugura relações menos tolerantes com a opressão. Inclusive na esquerda.
A esquerda foi, sem dúvida, protagonista na construção das políticas públicas de proteção às mulheres. Mas essa constatação não nos absolve. O sexismo, o machismo e a misoginia não são apenas traços da sociedade; estão também entranhados em nossas estruturas: movimentos, partidos, sindicatos, reproduzidos em práticas cotidianas, silenciamentos, hierarquias informais e na resistência à transformação de nossos próprios métodos políticos. Não basta combater a opressão de gênero no plano programático. É preciso reorganizar profundamente a cultura interna de nossas organizações.
Esse enfrentamento está longe de ser simples. Combater a violência de gênero dentro da esquerda implica tensionar lideranças, expor contradições, rever privilégios, atravessar crises, embates e até cisões. É, assim como na sociedade, uma disputa estrutural sobre poder, organização e projeto político. Justamente por isso, essa é uma tarefa incontornável se a esquerda pretende seguir sendo sujeito histórico de transformação. Trata-se de uma das tarefas decisivas do nosso tempo.





