Globalização & Covid: aqui surgiu a cepa inglesa

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Retrato da degradação neoliberal, no centro do mundo. Em Kent, vizinha a Londres, britânicos empobrecidos e imigrantes precarizados aglomeram-se em cubículos insalubres. Lá, a variante B- 1.1.1.7 eclodiu e se espalhou pelo planeta

Uma crônica política de Patrick Cockburn, no London Review of Books | Tradução: Simone Paz

Em outubro do ano passado, o número de infectados da Covid-19 começou a aumentar nas cidades costeiras ao nordeste de Kent [vizinha de Londres e banhada pelo Atlântico, no Canal da Mancha]. A região havia driblado bem a primeira onda da pandemia até a primavera, e muitos de seus moradores diziam não conhecer ninguém que tivesse contraído o vírus. Após o fim do lockdown, no dia 4 de julho, pairava no ar a sensação de que a crise havia acabado — assim, houve pouco alarme quando o número de infecções começou a aumentar. Os distritos mais afetados foram Thanet, que inclui as cidades de Margate, Broadstairs e Ramsgate; e Swale, mais a oeste, cujos principais centros populacionais são Sittingbourne, Faversham e a Ilha de Sheppey, próxima da costa. Em novembro, o número de casos aumentou vertiginosamente e logo o nordeste de Kent tinha as maiores taxas de infecção do país. Em meados do mesmo mês, o distrito municipal de Sheppey East, na Ilha de Sheppey, teve uma taxa de infecção de 1,9 mil para 100 mil — sete vezes o nível do Reino Unido como um todo.

O lockdown e seu complexo sistema de diferentes níveis para cada região, parecia que supunha um vírus de mobilidade limitada, que respeitaria fronteiras municipais. Mas começava a ficar evidente que, independentemente da eficácia do lockdown em outras regiões do Reino Unido, ele não estava funcionando neste canto de Kent. O surto de infecções avançou inexoravelmente para o interior, em direção ao lugar que eu moro, em Canterbury, a quinze milhas de Margate e dez milhas de Faversham.

Não surpreende que os distritos de Swale e Thanet tenham sido gravemente afetados: essas são áreas reconhecidas pela sua pobreza, e é muito provável que essa característica tenha propiciado um terreno ideal para a reprodução do vírus. Swale e Thanet são os principais exemplos da Grã-Bretanha litorânea, lugares em decadência, onde hotéis e pousadas quebrados foram transformados em apartamentos de um quarto, onde poucos podem trabalhar de casa porque seus empregos não o permitem; e onde, de qualquer jeito, as moradias são pequenas demais para conseguir trabalhar nelas. Anos de austeridade já haviam cortado o financiamento e os benefícios dos quais estas cidades dependiam. As pessoas são mais vulneráveis ao vírus aqui porque sua saúde já era precária antes da pandemia e seu acesso à saúde muito limitado: em Swale, a proporção de médicos de família para os residentes é menor do que em qualquer outro canto da Inglaterra. A desigualdade é extrema: uma mulher que habita a ala mais rica de Thanet viverá, em média, 22 anos a mais do que uma mulher da ala mais pobre.

De certa maneira, achei reconfortante refletir sobre os fatores favoráveis à disseminação do vírus nas cidades costeiras de Swale e Thanet que podem não se aplicar a uma cidade do interior como Canterbury. Na extremidade leste da Ilha de Sheppey, existem três prisões, com cerca de três mil prisioneiros, onde se sabe que houve um surto de Covid-19. Muitas pessoas insistem que as prisões devem ser a razão por trás da alta taxa de infecção na ilha — embora um oficial de saúde pública já tenha dito que apenas 20 por cento das infecções locais foram registradas em prisões ou lares de idosos. Outra explicação para a epidemia era que ela tinha a ver com imigrantes. Thanet já foi o coração do UKIP (UK Independence Party, um partido político britânico eurocético e de direita), único lugar onde o partido ganhou o controle do conselho local.

Os moradores de Margate reclamam dos imigrantes dando festas, se aglomerando nas ruas sem máscaras e assoando o nariz de maneira arriscada. “Você se cansa de ouvir as pessoas dizendo que eles [os imigrantes] trazem o vírus”, disse-me Ivor Riddell, um sindicalista e condutor de ferrovias. “Tudo isso faz parte da crença de que se nos livrássemos dos imigrantes, poderíamos voltar à década de 1950.”

Algumas dessas explicações pareciam verossímeis, outras eram um bode expiatório escancarado — mas todas se revelaram igualmente incorretas. No final de novembro, a epidemia se espalhava rapidamente ao longo do estuário do Tâmisa, passando por Medway, Gravesham e Dartford, a oeste; e em direção a Canterbury e Maidstone, ao sul. Os trabalhadores da saúde pública prometeram um “mergulho profundo” nas razões da deterioração da situação, mas pareciam perplexos, recomendando apenas que as pessoas cumprissem com mais rigor as restrições. Em Londres, os cientistas que dirigiram o plano nacional de resposta à Covid-19 ficaram igualmente perplexos quanto ao motivo pelo qual o lockdown funcionava dentro do esperado em todo o país, menos aqui.

Uma nova variante do vírus havia sido detectada em Kent já em 20 de setembro, mas seus poderes ainda não tinham se tornado visíveis. Eventualmente, os níveis de infecção chamaram a atenção geral. Em 23 de dezembro, Peter Horby, presidente do NERVTAG – Grupo de Orientação sobre Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes, declarou: “esta variante tornou-se interessante porque, apesar do lockdown nacional, ocorreu uma investigação em Kent, no início de dezembro, devido ao número crescente de casos”.

Já era tarde demais para tentar isolá-la. A nova cepa já vinha desenfreada, deslocando rapidamente o vírus original em Kent, Londres e em todo o sudeste. Em 18 de dezembro, a NERVTAG concluiu que a variante “começou em Kent, provavelmente de uma pessoa, e depois se expandiu”. Também estimaram que ela era entre 30% e 70% mais infecciosa do que a cepa original. Na última semana de dezembro, aquela que vinha ganhando fama como “a variante Kent” — seu nome científico é B.1.1.7 — era dominante na Inglaterra. Em fevereiro, a variante já havia se espalhado para 83 países e foi detectada inclusive na Nova Zelândia, que até então tinha cercado com sucesso o Covid-19; nos EUA, os cientistas esperavam que se tornasse a variante dominante em março.

A NERVTAG não deu detalhes do local específico de Kent onde a variante foi localizada pela primeira vez, mas o Covid-19 Genomics UK Consortium (algo como um Consórcio Britânico do Genoma da Covid-19 — composto por um grupo de agências de saúde pública e instituições acadêmicas) revelou que uma amostra-chave teria vindo de um paciente que vivia “perto de Canterbury”. Uma fonte médica, que solicitou anonimato, me contou que a variante foi identificada pela primeira vez em Margate e que veio de alguém com um sistema imunológico fraco. Alguns em Kent sentiam aversão à perspectiva do novo vírus ficar conhecido na história como “a variante de Kent”, traçando um paralelo com o “vírus chinês” de Trump, ou a “gripe espanhola” que nem veio da Espanha (ela se tornou uma epidemia nos campos de treinamento militar dos EUA).

Seria difícil encontrar um lugar onde o coronavírus tivesse maior probabilidade de florescer e aprimorar seu modo de ataque do que Thanet e Swale. Como em grande parte da costa da Grã-Bretanha, poucas cidades ainda funcionam com portos ou resorts à beira-mar. A antiga indústria praticamente sumiu — levando consigo os poucos empregos bem remunerados possíveis. Dos quinze bairros mais carentes de Kent, sete estão em Thanet e seis em Swale. “Perdemos a indústria de mineração e o porto de Ramsgate, que era um grande empregador”, diz o vereador do Partido Trabalhista, Barry Lewis, lamentando os repetidos golpes que Margate tem sofrido nos últimos quarenta anos. As indústrias hoteleira e turística entraram em colapso “quando todos começaram a viajar para o exterior nas férias”. A última grande indústria na região foi a fábrica da Pfizer, perto de Sandwich, que fechou em 2011 e acarretou na perda de 1.500 empregos. Os empregos que restaram são geralmente para trabalho intermitente — o chamado “contrato zero-hora”. Um mapa que destaca as áreas de maior miséria coincide quase que perfeitamente com outro que indica as altas taxas de infecção viral.

Tudo na vida profissional média de qualquer pessoa de Swale ou Sheppey os coloca em risco. Muito disso tem a ver com a necessidade de sair para trabalhar. Como disse Jackie Cassell, especialista em saúde pública da Brighton and Sussex Medical School que cresceu em Sheppey, “a pobreza é um mecanismo para aumentar o contato social”. As pessoas na ilha têm uma maior probabilidade do que a população em geral de usar o transporte público para ir ao trabalho, fazendo turnos de oito ou mais horas por dia em armazéns ou em canteiros de obras. E as pessoas com pouco dinheiro têm também mais chances de cuidar eles mesmos de parentes doentes ou idosos. Em um estudo sobre padrões de trabalho, Cassell descobriu que, em média, alguém que sai para trabalhar tem doze períodos prolongados ou próximos de contato com as pessoas e dezessete breves ou distantes; aqueles que trabalham em casa têm apenas dois períodos de contato próximos ou prolongados e dois breves ou distantes.

O efeito que isso tem na prática depende da natureza do trabalho e do empregador. Riddell, o sindicalista e condutor ferroviário, diz que a proporção de passageiros que usam máscaras no trem varia de linha para linha, mas o trecho de Sittingbourne a Sheerness (no lado oeste de Sheppey) é particularmente arriscado para os funcionários ferroviários porque “entre 50% e 60% das pessoas, principalmente os mais jovens, não usam máscaras”. Como condutor, ele pode ficar na cabine da frente com o motorista e não precisa verificar as passagens dos passageiros. Mas Sue Saunders, que trabalha como faxineira nos trens, tem que andar pelos vagões borrifando desinfetante e limpando superfícies.

Sue conta: “Temos viseiras, máscaras e luvas, mas tememos pela nossa segurança e vários de meus amigos já pegaram Covid”. Os faxineiros costumam ser as únicas pessoas vestidas com uma certa oficialidade nos trens e, de acordo com Saunders, são frequentemente parados por passageiros que precisam de informações. Ela diz que a higienização poderia ser feita quando os trens estão vazios entre as viagens, mas que as companhias ferroviárias querem que os passageiros vejam os limpadores trabalhando.

O compromisso com as restrições à interação social expirou em larga escala durante o verão. Sharon Goodyer, que dirige o Margate Food Club, diz que seus voluntários às vezes não conseguiam distribuir alimentos com segurança em áreas pobres porque tinham que abrir espaço empurrando as pessoas sentadas nas portas e se aglomerando na rua. “Tenho a sensação”, diz ela, “de que se essa nova variante começou em Margate, e então ganhamos ela”. Mas ressalta que mesmo as pessoas pobres precisam sair de casa: “Você não pode julgar se você mora numa boa casa e não tem ratos moribundos embaixo de sua cadeira”. Barry Lewis menciona uma rua em Margate com cerca de duzentas casas superlotadas, onde os residentes alugam quartos minúsculos a preços abusivos. “É quase uma prisão, então sair para a frente da casa faz parte de seu modo de vida normal, e ficar preso em um cômodo superlotado não é viável”.

A chegada da variante mudou a atitude das pessoas. Vanessa Crick, mãe de três filhos em Herne Bay, uma cidade decadente na costa entre Swale e Thanet, tem dois empregos: um na biblioteca local, e o outro, num supermercado. Ela diz: “Desde novembro passado, mais pessoas começaram a usar máscaras porque temem por seu avô ou sua avó”. Charlotte Cornell, que dirige uma instituição de caridade que distribui laptops para a educação à distância de crianças em áreas carentes, diz que nenhuma das famílias com as quais ela lida é arrogante em relação ao vírus: “Todos têm pavor dele”.

Quando especialistas em saúde pública foram enviados a Kent no final do ano passado para investigar as razões da epidemia local, eles suspeitavam que a propagação seria atribuível a ações humanas em casa ou no local de trabalho. O que sabiam era que tudo na vida das pessoas em Thanet e Swale favorecia uma transmissão acelerada do vírus. O ambiente também era um fator: balneários decadentes têm muitos hotéis antigos com vista para o mar, cuja grandeza desbotada os torna ideais para a conversão em lares de idosos. Em maio passado, dezessete residentes morreram de Covid-19 em um lar de idosos em Margate, mas as mortes massivas em asilos foram um escândalo em toda a Grã-Bretanha — não houve nada de peculiar em Thanet.

Um motivo mais provável para a rápida disseminação era que muitas pessoas tinham bons motivos para não fazerem testes de Covid. Pessoas que testam positivo, mas que precisam trabalhar e não recebem auxílio se faltarem ao emprego, não podem ficar de quarentena. “Jovens do sexo masculino em áreas economicamente carentes não querem fazer o teste”, diz Jackie Cassell sobre Swale. Ela aponta para um estudo feito em Liverpool, onde apenas 4% das pessoas em um dos bairros mais pobres da cidade se ofereceram para um teste. Desde o início da pandemia, o governo tem sido volúvel sobre as restrições que impõe, e evasivo sobre até que ponto as pessoas as cumprem. Um estudo do King’s College London mostrou que, enquanto 70% das pessoas disseram que se isolariam se fosse necessário, apenas 18% cumpriram.

As pessoas que não fazem o teste porque não podem bancar a quarentena se comportam de maneira discreta. Mas há outros grupos que também não querem chamar a atenção de nenhuma autoridade. Graham Tegg, diretor da Kent Law Clinic, que fornece assistência jurídica gratuita, diz que há “um sistema subterrâneo” de trabalhadores imigrantes, cuja maioria vive na Grã-Bretanha há muito tempo e deseja manter distância das instituições estatais. Muitos de seus clientes são tchecos, poloneses e ciganos. Alguns colhem frutas e vegetais ou trabalham em fábricas de embalagens; recolhidos por minivans pela manhã, trabalham dez horas e voltam à noite na mesma van. “Três ou quatro deles podem estar morando no mesmo pequeno cômodo”, diz Tegg, fornecendo condições perfeitas para o vírus se espalhar.

Mas a maioria das pessoas em Thanet e Swale não têm “conexão com as autoridades”, de acordo com Barry Lewis: só veem a autoridade em ação quando a polícia os impede de fazer algo que desejam fazer. Alguns deles são desempregados de terceira geração, cuja única perspectiva de ganhar dinheiro está no mercado negro ou no comércio de drogas — descritos por um habitante como a única indústria em crescimento em Thanet. “O que temos aqui é uma comunidade inteira que não tem nenhum investimento na sociedade”, diz Sharon Goodyer. “Eles devem algo a alguém? Não. Eles não recebem uma educação decente nem possuem uma casa decente, um emprego decente. Então, por quê que eles deveriam se comportar de maneira responsável?”

 

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