Meio século na linha de frente da vacinação no Brasil: “A pandemia nos lembrou o valor do SUS”

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O médico José Cássio de Moraes participa do planejamento das principais campanhas de vacinação no país desde a epidemia de meningite. Ele lamenta os atrasos na imunização contra a covid-19: “O Brasil pode vacinar no mínimo 2 milhões de pessoas por dia”

O médico epidemiologista José Cássio de Moraes em sua casa, em Santos, litoral de São Paulo.
O médico epidemiologista José Cássio de Moraes em sua casa, em Santos, litoral de São Paulo.ALEX ALMEIDA

O médico fala com a propriedade de quem participa há 46 anos do planejamento de campanhas de vacinação no Brasil. Professor da faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro do Observatório Covid-19, Moraes ajuda a planejar campanhas de imunização desde 1975, quando o Brasil vacinou sua população contra a meningite. “Na região da Grande São Paulo vacinamos nove milhões de pessoas em cinco dias”, recorda. Eram os primeiros passos do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Ao longo dessas quase cinco décadas, ele vem assessorando o Governo paulista e o Ministério da Saúde —ainda hoje participa de um grupo de trabalho vinculado à pasta— e já foi diretor do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo. “Temos estrutura que pode atingir 100% da população e know how, mas por pressões e disputas políticas estamos nesta situação, com muita dificuldade de executar”, argumenta. “É triste. Países com menos estrutura, como os EUA, começaram antes a vacinar.”

O epidemiologista guarda na memória momentos marcantes dessas décadas imunizando a população brasileira. Como quando foram injetadas três milhões de doses em um só dia somente no Estado de São Paulo. Era o final dos anos de 1980 e o Brasil se mobilizava contra o sarampo. ”Havia apoio dos outros ministérios e secretarias, fábricas de automóveis que colocavam veículos à disposição dos vacinadores, artistas fazendo propaganda, o Zé Gotinha…”. Esses são alguns dos elementos que precisam ser recuperados para a atual campanha contra a covid-19, opina o médico. “Podemos mobilizar a sociedade civil, e inclusive utilizar os militares, para registrar as doses de vacina injetadas, organizar as filas, e liberar os profissionais da saúde”, sugere. “Isso aumenta muito a capacidade das equipes técnicas em vacinar, elas ficariam centradas em preparar a aplicar as doses.”

vacinação contra o novo coronavírus começou no Brasil em 17 de janeiro, em meio a uma guerra política entre o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O tucano fez a primeira fotografia da campanha de imunização minutos depois que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso emergencial da Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, e da vacina da AstraZeneca/Oxford, que será produzida no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O médico lamenta que a briga entre as esferas federal e estadual prejudique a saúde da população. “As coisas estão sendo feitas de forma atropelada, com falta de transparência nas informações, com briga entre entes federal e estadual”, lamenta.

O médico epidemiologista José Cássio de Moraes.
O médico epidemiologista José Cássio de Moraes.ALEX ALMEIDA

Naquele momento o Brasil contava apenas com 6 milhões de doses do imunizante testado pelo Butantan —insuficientes para imunizar os profissionais de saúde— e passou por dificuldades para importar da Índia 2 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca e trazer os insumos da China. Resultado da falta de um planejamento que deveria —e poderia— ter começado com meses de antecedência, avalia o epidemiologista ―para quem a “negação” por parte do Ministério da Saúde em relação à doença contribuiu com o atraso.

O médico explica que, ao planejar uma campanha vacinação, já se sabe com quantas doses o país poderá contar e “qual vai ser o escalonamento”. Dessa vez existe um problema de oferta de vacinas contra o coronavírus no mundo inteiro. Contudo, as autoridades brasileiras ainda falavam sobre normas técnicas e sistema informação apenas uma semana antes do início da vacinação, recorda Moraes.

“Precisa sair uma norma técnica com toda uma normatização meses antes da campanha para que todos os municípios falem a mesma linguagem e evitar o que chamamos de erro de aplicação”, argumenta. Até mesmo questões que parecem ser banais, como o espaço que os postos de saúde deverão reservar na geladeira antes da chegada das vacinas, precisa entrar no plano. “Tudo isso faz parte de um planejamento. Todo ano sai uma norma para a vacinação da Influenza dizendo qual é a composição da vacina, como ela precisa ser aguardada, como vai ser feita a vigilância de efeitos adversos…”.

Perda da cobertura vacinal

Moraes parece estar falando algo que deveria ser óbvio em um país que, lembra ele, erradicou a poliomielite em 1989―três décadas antes da África―, faz campanhas anuais contra a Influenza, introduziu a vacina tríplice viral em 2002 contra a caxumba, rubéola e o sarampo, proporcionadas pelo PNI e o Sistema Único de Saúde (SUS). Ao longo da conversa com o EL PAÍS, ele faz questão listar esses avanços em vários momentos para alertar sobre o potencial que o Brasil já vinha perdendo mesmo antes da campanha contra a covid-19. De acordo com o médico, as mobilizações em torno de campanhas de vacinação vem perdendo fôlego ano a ano. “Antigamente era divulgado intensamente na TV. Ano passado fizemos varias campanhas de vacinação que ninguém ficou sabendo, incluindo os profissionais da saúde. Eu chamo de campanhas secretas, porque não havia nenhuma iniciativa do Governo federal ou estadual para fazer essas campanhas.”

O resultado desse processo é que a cobertura vacinal vem diminuindo há pelo menos cinco anos e doenças como o sarampo voltaram a assombrar os brasileiros. Há vários fatores que explicam essa queda. Um deles é o que Moraes chama de “síndrome da terra plana” e as mentiras sobre a imunização que fazem a cabeça de muitas pessoas. Mas o movimento antivacina brasileiro ainda é recente se comparado com os EUA e países da Europa.

O problema maior é a “redução de recursos para o SUS”. Isso resulta em “uma redução de funcionários nos postos de saúde, nos horários em que estão abertos para dar a vacina”, entre outros fatores. “Se o posto só funciona em horário comercial, então as pessoas que trabalham terão mais dificuldades de serem vacinadas”, explica o médico. “As pessoas têm dificuldade de chegar ao centro de saúde, seja por causa de acesso, locomoção, horário… E quando chega, tem horário limitado, fila… As dificuldades vão aumentando.”

Ele também acredita que a erradicação de doenças como a poliomielite e o sarampo fizeram com que muitos “perdessem o medo de doenças” e achassem que não precisam mais ser imunizadas. “Aí começam a selecionar quais vacinas vão tomar. Por que eu vou me vacinar contra a polio se não tem caso desde 1989? Bom, mas se não vacinar, ela pode ser reintroduzida, como foi o caso do sarampo”, argumenta.

Por outro lado, o epidemiologista diz acreditar que a pandemia de covid-19 mostrou para a população que o SUS “possibilitou a sobrevivência de milhões de pessoas”. E, por isso, esse sistema, que é universal e gratuito, “passou a ser valorizado, até mesmo pela própria imprensa.” “Não significa que os nossos dirigentes vão acompanhar esse aumento de popularidade [do SUS]. Não temos um aumento aumento de investimento previsto para este ano. O que se tem é medida provisória [garantindo recursos] para utilizar na pandemia”, complementa. Apesar das críticas, Moraes avalia que aqueles que estão engajados na vacinação, incluindo os municípios, estão fazendo o melhor que podem. “Mas não é fácil nessa situação e com uma vacina com duas doses em intervalos curtos”, explica. E lamenta mais uma vez: “O motivo de minha ansiedade, de minha tristeza, é que não estamos utilizado toda essa expertise de quase 50 anos.”

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