O crédito costuma ser tratado como um produto
financeiro. Na realidade, ele é muito mais do que
isso, sendo um instrumento de desenvolvimento
e, dependendo da forma como é oferecido, pode
impulsionar a economia ou travá-la.
Quando uma família consegue financiar sua
casa própria, não está apenas adquirindo um
imóvel. Está movimentando uma extensa cadeia
produtiva. A construção civil compra cimento, aço,
madeira, vidro, cerâmica, equipamentos elétricos e
hidráulicos. Contratam-se engenheiros, arquitetos,
pedreiros, eletricistas, encanadores e inúmeros
outros profissionais. Ao mesmo tempo, novos
bairros demandam escolas, unidades de saúde,
transporte, comércio e serviços. Cada real investido
gera novos investimentos, novos empregos e novas
oportunidades.
É o chamado efeito multiplicador. O recurso
aplicado não se esgota na primeira operação. Ele
percorre diferentes setores da economia, amplia
a atividade produtiva e retorna à sociedade na
forma de renda, arrecadação e crescimento. Em
outras palavras, colocar recursos na base da
sociedade não significa retirar dinamismo da
economia. Significa fortalecê-la.
O mesmo raciocínio vale para programas de
transferência de renda. Durante muito tempo, parte do
debate público procurou apresentar iniciativas como o
Bolsa Família apenas como despesas do Estado. Mas,
quando o recurso chega às famílias de baixa renda,
ele retorna imediatamente ao mercado por meio do
consumo. São compras de alimentos, medicamentos,
roupas, material escolar, transporte e serviços básicos.
Este consumo fortalece o comércio local, estimula a
produção industrial e gera empregos.
A experiência internacional demonstra isso de
maneira consistente. Países que conseguiram construir
mercados internos sólidos compreenderam que
ampliar a capacidade de consumo da população não
é apenas uma política social, mas uma estratégia
econômica. O desenvolvimento sustentável depende
justamente dessa circulação permanente de riqueza.
É nesse ponto que a Caixa Econômica Federal
assume um papel singular. Sua importância não
está apenas em administrar programas públicos ou
conceder financiamentos. Está na capacidade de
direcionar recursos para áreas onde eles produzem
maior retorno econômico e social.
A Caixa conecta políticas públicas, crédito e
desenvolvimento de uma maneira que poucas
instituições financeiras conseguem realizar. Quando
operacionaliza programas como Bolsa Família e Pé-deMeia, a instituição garante que milhões de brasileiros
tenham acesso a uma renda capaz de movimentar a
economia local. Quando financia o Minha Casa, Minha
Vida, fortalece simultaneamente a construção civil,
a indústria de materiais, o comércio, os serviços e o
mercado de trabalho. Quando investe em saneamento,
infraestrutura urbana e em desenvolvimento regional,
cria condições para elevar a produtividade de
municípios inteiros.
Essa lógica difere profundamente da atuação
predominante do sistema financeiro privado. O
objetivo central de um banco público não pode ser
apenas maximizar dividendos. Sua missão é orientar
o crédito para atividades capazes de produzir riqueza
coletiva. Isso significa financiar investimentos
produtivos, estimular pequenos negócios, apoiar
a agricultura familiar, fortalecer cooperativas,
incentivar projetos locais e ampliar o acesso ao
financiamento para famílias e empreendedores.
Em um país marcado por profundas
desigualdades territoriais, essa capacidade tornase decisiva. Em milhares de municípios, a presença
da Caixa Econômica Federal representa não apenas
um banco, mas a própria presença do Estado,
garantindo acesso ao crédito, aos programas
públicos e aos serviços financeiros.
Mas o desenvolvimento não depende apenas
da existência de recursos financeiros. Depende
também da capacidade das próprias comunidades
de participar das decisões sobre sua utilização.
Como sustento em meu livro “Resgatar a função
social da economia”, a democracia não se esgota
no voto. Ela exige mecanismos permanentes
de participação social, acompanhamento das
políticas públicas e descentralização do processo
decisório. É no nível municipal que a população
conhece seus problemas, identifica oportunidades
e pode definir prioridades com maior eficiência.
Essa visão não é apenas uma defesa da
participação democrática; ela também representa
uma estratégia de desenvolvimento econômico.
Quando as decisões são tomadas mais próximas
dos territórios, torna-se possível direcionar o crédito
para responder às necessidades reais de cada região.
Um município sabe onde faz mais sentido apoiar
uma cooperativa, fortalecer a agricultura familiar,
investir em infraestrutura urbana, estimular
pequenos empreendimentos ou criar um cinturão
hortifrutigranjeiro. Quando o financiamento dialoga
com essas prioridades locais, o efeito multiplicador
dos investimentos torna-se muito maior.
Democratizar as decisões sobre o
desenvolvimento deixa, assim, de ser apenas um
ideal político e passa a representar também uma
forma mais eficiente de organizar a economia.
É justamente nesse contexto que a Caixa
Econômica Federal amplia sua relevância. Pela
sua capilaridade e pela experiência acumulada na
execução de políticas públicas, a instituição tem
condições de conectar crédito, participação social
e desenvolvimento territorial, transformando
recursos financeiros em oportunidades concretas
para fortalecer economias locais, reduzir
desigualdades e ampliar a capacidade de cada
comunidade construir seu próprio futuro.
O crédito precisa voltar
a servir à economia real
Se existe hoje um dos maiores entraves ao
desenvolvimento brasileiro, ele está no custo do
crédito. Durante décadas, consolidou-se no país
uma lógica em que o sistema financeiro passou
a ser remunerado muito mais pela circulação
do próprio dinheiro do que pelo financiamento
da produção. O resultado foi uma progressiva
financeirização da economia, fenômeno que
desloca recursos da atividade produtiva para
operações de natureza essencialmente financeira.
O Brasil pratica uma das maiores taxas de juros
reais do mundo. Enquanto em muitos países os juros
ficam próximos de zero ou em níveis baixos, aqui
o custo do crédito é extremamente elevado. Isso
faz com que seja mais lucrativo aplicar dinheiro
no sistema financeiro do que investir na produção,
na geração de empregos ou na inovação. Com
juros desse tamanho pagos aos bancos, as famílias
deixam de comprar o que precisam para o sustento.
E as empresas deixam de investir porque não faz
sentido tomar crédito a 25% ao ano.
As consequências são visíveis. De um lado,
milhões de famílias convivem com taxas de juros
incompatíveis com qualquer perspectiva de
planejamento financeiro. Grande parte da renda é
destinada ao pagamento de dívidas, reduzindo a
capacidade de consumo justamente da parcela da
população que mais dinamiza a economia.
De outro, empresários deixam de investir porque
o custo do financiamento torna inúmeros projetos
economicamente inviáveis. Em vez de construir
uma nova fábrica, ampliar um negócio ou investir
em inovação, muitos preferem adiar investimentos
diante de um crédito excessivamente caro. O
resultado é uma economia que cresce menos do
que poderia.
É importante compreender que juros elevados
não afetam apenas quem toma empréstimos. Eles
reduzem o consumo, desestimulam investimentos,
diminuem a geração de empregos e comprometem
o crescimento da renda nacional. São um freio
permanente sobre a economia real.
Essa realidade contrasta com a experiência
da maior parte das economias desenvolvidas.
Em diversos países, o crédito para famílias e
empresas opera com taxas significativamente
menores porque existe o entendimento de que
o financiamento produtivo não é apenas uma
operação bancária: é uma política econômica.
E o Brasil precisa recuperar essa compreensão.
Isso não significa ignorar os desafios do equilíbrio
fiscal nem desprezar o papel da política monetária.
Significa reconhecer que o sistema financeiro
deve cumprir sua função primordial: transformar
poupança em investimento produtivo.
Nesse contexto, a Caixa Econômica Federal reúne
características que poucas instituições financeiras
possuem simultaneamente: ampla presença no
país, forte capacidade operacional, conhecimento
das políticas públicas e sólida situação financeira.
Esta combinação permite que a instituição atue
como indutora de um ambiente de crédito mais
favorável ao desenvolvimento.
A experiência brasileira demonstra que, sempre
que bancos públicos ampliaram o acesso
ao crédito em condições mais equilibradas,
contribuíram para dinamizar mercados, ampliar
investimentos e estimular a concorrência. Não
se trata de substituir o setor privado, mas de
estabelecer parâmetros que aproximem o sistema
financeiro de sua função social.
Mais do que oferecer empréstimos, um banco
público pode ajudar a reorganizar incentivos
econômicos. Pode priorizar financiamentos que
gerem emprego, apoiem pequenas empresas,
fortaleçam cooperativas, ampliem a infraestrutura
urbana e impulsionem a inovação. Pode estimular
setores capazes de produzir riqueza de forma
sustentável e reduzir desigualdades regionais.
Essa capacidade torna-se ainda mais relevante
diante das transformações pelas quais passa o
mercado financeiro. A digitalização ampliou o acesso
aos serviços bancários, mas não resolveu o principal problema: o elevado custo do crédito para famílias e empresas. A tecnologia, por si só, não democratiza
oportunidades. O que democratiza oportunidades é o
direcionamento inteligente dos recursos financeiros.
Por isso, fortalecer a atuação da Caixa
Econômica Federal não significa defender
privilégios para uma instituição pública. Significa
reconhecer que o desenvolvimento econômico
exige instrumentos capazes de financiar aquilo
que produz valor para a sociedade.
O crédito deve voltar a ser uma ponte entre a
poupança e a produção, entre o investimento e
o emprego, entre o crescimento econômico e a
redução das desigualdades sociais. Essa é, em
essência, a missão que justifica a existência de
um banco público em um país como o Brasil.
A experiência internacional confirma esse
caminho. Países que conseguiram combinar
crescimento econômico com redução das
desigualdades contam com bancos públicos
robustos, sistemas de crédito voltados ao
investimento produtivo e políticas que fortalecem
seus mercados internos.
No fim das contas, a questão central continua
sendo a mesma. O Brasil não enfrenta uma
escassez de recursos. O que precisa mudar é a
direção desses recursos. O dinheiro destinado à
especulação permanece concentrado e beneficia
poucos. O dinheiro orientado para a economia
real multiplica investimentos, fortalece empresas,
gera empregos, amplia o consumo, aumenta a
arrecadação e melhora a vida das pessoas. Essa é
a lógica dos efeitos multiplicadores. É também a
lógica do desenvolvimento.
Fortalecer a Caixa Econômica Federal como banco
público significa consolidar essa visão de país: uma
economia em que o crédito deixa de ser apenas uma
fonte de rentabilidade financeira para tornar-se
um instrumento permanente de desenvolvimento
social, redução das desigualdades e construção de
um Brasil mais justo e mais próspero.
*Ladislau Dowbor é economista, doutor em
Ciências Econômicas pela Escola Superior
de Estatística e Planejamento de Varsóvia,
professor titular de pós-graduação da PUCSP
e consultor de diversas agências da ONU.






