Fortalecer redes e ter olhar crítico sobre o que se faz é imprescindível quando o trabalho deixar de se conectar com a vida.
O trabalho, segundo Marx, um dos grandes estudiosos desse tema, é a atividade fundamental que nos diferencia dos animais e dá origem à vida social e à própria humanidade. Ele assenta-se em uma atividade consciente, intencional, onde o ser humano, através da transformação da natureza para satisfazer suas necessidades, transforma dialeticamente a si mesmo, através de mudanças no pensamento, na linguagem, na forma de se relacionar e de agir.
O trabalho possui uma dimensão ontológica, ou seja, é constitutivo do ser, e atividade fundante do ser social; e teleológica, pois o homem, ao agir sobre a natureza, primeiro imagina o objetivo que deseja alcançar, e organiza suas ações para realizar o que deseja, ou seja, constrói primeiro na mente antes de construí-la na realidade.
Assim, o trabalho não é algo que se faz somente para ganhar dinheiro: envolve uma atividade consciente, planejada, com uma finalidade e que oferece sentido à existência, quando exercido de forma livre, consciente e criativa.
O trabalho envolve a criatividade, a nossa ação sobre o mundo e a nossa própria construção enquanto sujeito. Desta maneira, o trabalho, ao encontrar-se entrincheirado na produção de sentido sobre o mundo e naquilo que permite a um ser tornar-se quem ele é, quando acontece de forma alienada, repetitiva, sem reflexão, invisibilizada, desvalorizada, produz imenso sofrimento.
Atualmente observa-se um incentivo para que o sujeito seja um empreendedor, um “explorador de si”. Tal ideia sustenta inúmeras ilusões: sob a pretensa sensação de posse e controle do seu trabalho, o sujeito abre mão de garantias trabalhistas, envolve-se em uma jornada de trabalho sem descanso para produzir ininterruptamente, movido pela ilusão de que conseguirá pelo mérito, o patrimônio bilionário das celebridades que acompanha pelos algoritmos. Tal empreitada será adoecedora e impactará nas políticas de saúde do trabalhador.
Para se ter ideia dos impactos do trabalho sobre a saúde mental, em 2025, no Brasil, segundo dados do INSS, foram mais de 546.254 afastamentos por questões de Saúde Mental, o recorde do país.
Tais dados não são aleatórios. A falta de políticas de saúde mental do trabalho, metas cada vez mais altas, discrepância entre exigências do trabalho e oferta de suporte e condições adequadas de trabalho, assédio, remuneração insatisfatória, vínculos precários, jornadas longas de trabalho, mudanças tecnológicas e dificuldades nas relações interpessoais são alguns dos fatores responsáveis pelos indicadores de saúde mental que envolvem depressão, ansiedade, alcoolismo, esquizofrenia e estresse crônico no trabalho
Diante desses dados, no ano passado, o Governo atualizou a NR-1, norma que estabelece as diretrizes de saúde no ambiente de trabalho e que submete as empresas a fiscalizações para avaliar: condições precárias de trabalho, jornadas excessivas, assédio moral, metas discrepantes, falta de suporte, etc., na tentativa de propiciar melhorias nos ambientes de trabalho.
Futuro do mundo do trabalho
As expectativas em relação ao mercado de trabalho são preocupações constantes também entre adolescentes: se haverá emprego, se conseguirão ser bem remunerados, se encontrarão satisfação no trabalho, se conseguirão ter tempo para si quando começarem a trabalhar, se encontrarão um trabalho onde se sintam dignos, respeitados e felizes, se conseguirão visibilidade através de uma função que lhes ofereça pertença social atrelada ao trabalho.
O medo contínuo do desemprego, exposição à violência, precariedade de políticas públicas, fragilidades em relação a suporte para educação, saúde, moradia, ampliam os indicadores de adoecimento e aumentam a procura pela medicalização e agravam a culpabilização diante do sofrimento psíquico, ao pensar que é falta de força, coragem ou determinação; o que mascara os aspectos sociais e multideterminantes do adoecimento e transtorno mental.
O trabalho deveria permitir a dignidade, a solidariedade, o trabalho em equipe com valorização da diversidade, empoderando a criatividade e o sentido de pertencimento e valor.
Um trabalho em que informações são confusas, ambivalentes, relações de poder que oprimem e massacram, que não permite o desenvolvimento e crescimento pessoal, que não faz sentido, que distancia da família, que interfere na qualidade de vida, que não oferece descanso, proteção, onde a cultura organizacional favorece o preconceito e a discriminação, é um trabalho que adoece.
Infelizmente, nem sempre é possível conseguir sair rápido de um trabalho adoecedor. Entretanto, é necessário perceber quando se está identificado com o regime opressivo e competitivo, que ilude o trabalhador como se fosse o próprio patrão e cria a ilusão de ser querido e respeitado quando não o é.
Encontrar alternativas de trabalho de forma cooperativa, fortalecer movimentos que dialogam em busca de condições dignas de trabalho, acompanhar projetos e leis que incidem sobre as garantias trabalhistas e mudanças no mundo do trabalho, e fortalecer a identidade e o olhar crítico sobre o que se faz, é imprescindível para que quando o trabalho deixar de se conectar com a vida e virar adoecimento, ser capaz tanto de buscar os direitos existentes quanto procurar outras alternativas.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.






Bom dia !
Ótimo texto , fez com eu perceba melhor o pensamento e ação de alguns colegas , como servidora pública tenho percebido vários deles reclamarem do trabalho , trabalho este que muitas vezes eles nem realizam , pois não se sentem pertencentes aquele setor . Então é reclamação constante em todos os sentidos , o que torna o ambiente muito pesado .