* Por Valerio Arcary
A resposta do Brasil à ofensiva de Trump deve ser firme e pública, conscientizando o povo sobre os perigos crescentes no cenário internacional
A carta de Donald Trump em que anuncia uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os EUA é o ataque imperialista mais grave contra o Brasil, desde a cumplicidade norte-americana com o golpe militar de 1964.
Quem subestimar a violência do ataque perdeu o juízo. Alguns podem interpretar como sendo somente uma declaração de “guerra econômica”. Mas não é. Não se trata de busca de nivelação da balança comercial. Aliás, ela é desfavorável para o Brasil.
Este pretexto é uma dissimulação grotesca. A avaliação da ofensiva só pode ser explicada, se compreendermos qual é o seu alvo. Que fim persegue? Ela responde a uma estratégia, eminentemente, política. Donald Trump quer desestabilizar o governo Lula. Mas trata-se de um ataque contra a nação.
Washington não pode aceitar, indefinidamente, a ambiguidade ou ambivalência da política externa brasileira. O Brasil condenou a invasão da Rússia contra a Ucrânia, mas não se alinhou com Volodymyr Zelensky. Lula exigiu a apresentação das atas eleitorais do processo que culminou com a reeleição de Nicolás Maduro na Venezuela, mas não denunciou o regime como uma ditadura.
Lula condenou a ação militar do Hamas, mas criticou o contra-ataque de Israel como um genocídio. Mas Donald Trump não consegue manter “neutralidade” diante da disputa de poder que se anuncia com a possibilidade da reeleição de Lula. Lideranças do governo Donald Trump, como o vice-presidente, já tinham manifestado apoio a candidaturas da extrema direita, como a AFD na Alemanha.
O objetivo político do documento é claro quando inicia o primeiro parágrafo defendendo Jair Bolsonaro. Não se trata, portanto, de um conflito econômico comercial.
Reduzir a investida à defesa de interesses econômicos das Big Techs ameaçadas de regulação pelo STF, tampouco, faz sentido. A importância econômica das Big Techs é, evidentemente, gigante. São hoje as maiores empresas capitalistas do mundo. As mídias norte-americanas são armas estratégicas na luta política- ideológica. São a “força aérea” da disputa de Washington pela defesa de sua supremacia no sistema internacional. A questão central é o lugar do Brasil no mundo.
A centelha para a insolência de Donald Trump parece ter sido a necessidade de resposta à recente reunião dos Brics no Rio de Janeiro, à defesa feita por Dilma Rousseff da necessidade de desdolarização, à presença de Lula em Moscou, quando dos oitenta anos da derrota do nazifascismo, e as críticas ao genocídio sionista na Faixa de Gaza.
Mas o gatilho deve ter sido a fala de Lula contra o “imperador”. Trata-se de abuso de poder da maior potência imperialista. Mas o alinhamento de Donald Trump com Jair Bolsonaro não é lateral na carta. Mudou de qualidade, e é uma sinalização da Casa Branca de que não aceita que o capitão seja preso.
Anuncia, preventivamente, que a provável condenação dos bolsonaristas, e eventual prisão será denunciada como perseguição política. Donald Trump abraça Jair Bolsonaro diante do mundo.
No terreno da tática, ou na escala dos tempos mais breves da luta política, a carta de Donald Trump é uma forma de pressão sobre o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal. Mas é também um posicionamento mais claro diante do governo Lula.
Não é irrelevante que desde a posse de Trump, os EUA não têm um embaixador em Brasília. Não é, também, desimportante que Donald Trump tenha se pronunciado, desaforadamente, no calor do dia da posse, dizendo que o Brasil precisa mais dos EUA que o contrário. Na dimensão estratégica a carta de Donald Trump é um primeiro movimento no curso de hostilidades que vão escalar.
A resposta do governo foi indicar a disposição de aplicar o princípio da reciprocidade, apresentada em um post de Lula na internet. Não é o bastante. A gravidade máxima do episódio exige que Lula faça um pronunciamento público em rede de TV aberta e rádio. Não se trata somente de defesa da nação com altivez.
O que está em disputa é a conscientização do povo de que o mundo ficou mais perigoso. Cláudia Sheinbaum, por muito menos, conclamou à mobilização de massas no Zocalo, a praça central da cidade do México. A governabilidade “a frio” pela via de sucessivas conciliações e recuos já tinha colapsado diante dos conflitos internos. Agora é a ambiguidade da política externa que está ruindo. Ainda há tempo, mas não muito, de inverter o curso.
Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo).





