*Por Waldenir Britto – Mestre em economia, diretor da AFBNB.
A primeira questão importante a ser registrada é que o pix tem relação direta com soberania e controle estatal. Interessa a nossa economia ter um instrumento que facilite as transações financeiras, a vida das empresas, das pessoas – de qualquer pessoa, que possa ser utilizado a qualquer hora, do dia ou da noite, em qualquer dia da semana, de qualquer valor, sem custos para as pessoas físicas. Não cabe a governos estrangeiros tentar imputar medidas ao Brasil que interfiram na nossa sociedade, principalmente para beneficiar suas próprias empresas. Infelizmente existem até brasileiros, inclusive políticos, que preferem ser subalternos e entreguistas a serem verdadeiros patriotas e defender o que é de interesse brasileiro.
O que se destaca, para além disso, é que o sistema financeiro, nacional e estrangeiro, há décadas afasta e cria dificuldades para pessoas simples se aproximarem dos bancos. Milhões de pessoas fora do sistema financeiro, e quando se é estritamente necessário, são atendidas em lotéricas e financeiras, quase sempre no meio da rua, com sol ou chuva. O pix, juntamente a melhoria da economia e o avanço tecnológico, fez com que milhões de cidadãos pudessem se beneficiar de um serviço financeiro, antes reservado somente a um número reduzido de pessoas.
Assim, quando se tenta argumentar que o pix “tomou” espaço das empresas estrangeiras administradoras dos cartões, seja crédito ou débito, se esquecem de avaliar o que a realidade impõe. Como já é praxe entre a direita brasileira e estrangeira, quando ataca a nação brasileira e direitos necessários aos brasileiros, está totalmente deslocada da realidade dos fatos. Importante, então, sempre apresentar os fatos.
Não precisa ser especialista para se perceber as informações abaixo[i]. Nos gráficos 1 e 2, se apresenta o crescimento exponencial, tanto em quantidade de utilização (gráfico 1) quando em valores em reais, com movimentação financeira, (gráfico 2), do uso do pix, desde sua criação no final do ano de 2020, até o final de 2025.

Com dados trimestrais de 2020 até 2025, se percebe claramente o crescimento, a cada trimestre, do uso do pix. Mais de 22 bilhões de transações, somente no último trimestre de 2025. Dados do Banco Central mostram que mais de 170 milhões de pessoas já utilizaram o pix. Uma inclusão financeira fundamental para a economia nacional.
O gráfico 2 adiante mostra a evolução, agora em valores reais, do uso do pix, desde sua criação em 2020:

Como se percebe no gráfico 2 acima, o volume de reais do pix cresce a cada trimestre. No último trimestre de 2025, chegou ao montante de mais de R$ 10 trilhões de reais movimentados. É importante ressaltar que tal volume nunca seria possível ser apresentado se fossem com a utilização do cartão de crédito ou débito.
Aí se apresenta outro dado, que desmistifica o ataque ao pix, pelos defensores das empresas estrangeiras de cartões: a implantação e uso do pix não diminuiu o uso dos cartões, seja de débito ou de crédito. Ao se avaliar, no mesmo período que foi demostrado acima, nos gráficos 1 e 2 – sobre o uso do pix, o uso dos cartões, se vê claramente que, ao contrário do que se tenta passar, o uso dos cartões no Brasil se elevou.
O gráfico 3 mostra claramente que a quantidade de utilização dos cartões, seja de crédito ou de débito, se elevou, consideravelmente: o cartão de crédito no primeiro trimestre de 2020 foi utilizado mais de 2,4 bilhões de vezes, chegando a mais de 6 bilhões no último trimestre de 2025. No caso do cartão de débito, sai de 2,7 bilhões para mais de 4 bilhões de vezes que foi utilizado, no mesmo período analisado. Portanto, o pix não prejudicou o uso dos cartões, ao contrário, certamente por mais pessoas podendo acessar o sistema financeiro, muitas empresas passaram a estudar e utilizar, portanto, o uso de outras formas de recebimento/pagamento, ampliando o uso do sistema.

Já o gráfico 4 apresenta, no mesmo período, o montante de valores negociados pelos cartões. Mais uma vez, está claro que o montante utilizado pelos cartões, se elevou. Sai de R$ 275 bilhões no primeiro trimestre de 2020 para mais de R$ 832 bilhões no último trimestre de 2025, que circularam através do cartão de crédito. Quando se avalia, a partir do cartão de débito, também houve crescimento no período: mais de R$ 171 bilhões no primeiro trimestre em 2020 para mais de R$ 253 bilhões no quarto trimestre de 2025.

Agora, ainda é necessário relembrar outro ponto importante no uso dos cartões: seu elevado custo. Tanto as chamadas tarifas de manutenção (como a anuidade), quanto as taxas de juros de financiamento (rotativo e parcelamento)[ii]. São taxas elevadíssimas, que garantem a lucratividade extraordinária do sistema financeiro brasileiro para estas empresas. Segundo dados do Banco Central, por exemplo, as taxas cobradas pelas instituições financeiras para o segmento Pessoa Física – Cartão de crédito – rotativo total – Prefixado, variam de 59,17% ao ano, para mais de 1.115,07%! Quem ou qual segmento produtivo consegue pagar taxas destes montantes?
Se é verdade que a sociedade brasileira precisa regulamentar o sistema financeiro que opera no país, de forma que este possa servir para os interesses nacionais de desenvolvimento – como a redução das taxas de juros, a obrigação de aplicação de financiamentos para os setores produtivos, a tributação de ganhos financeiros, o fortalecimento de bancos estatais para melhorias de créditos que possam alavancar o desenvolvimento, a exemplo do que faz o BNB no micro crédito, rural e urbano, dentre outras questões importantes – é verdade também que o pix atua de forma a democratizar o acesso aos serviços financeiros, incentiva a economia, incrementa os resultados das empresas, ao se tornar um mecanismo de baixo custo ou custo zero para os clientes.
Lógico que precisa e deve ser melhorado, aperfeiçoado. Mas deve ser entendido como um instrumento importante para a economia nacional, e, portanto, defendido de ataques, estrangeiros ou nacionais, na sua existência e funcionamento.
[i] Banco Central. Dados trimestrais. Meios de pagamentos. Quantidade. Valor. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/spbadendos?ano=2024. Acesso em: 18 jul. 2026.
[ii] Banco Central. Estatísticas. Taxas de Juros. Relatório de Taxa de Juros. Pessoa Física – Cartão de crédito – rotativo total – Prefixado. Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/reporttxjuros?codigoSegmento=1&codigoModalidade=204101&historicotaxajurosdiario_atual_page=2&tipoModalidade=D&InicioPeriodo=2026-06-29. Acesso em: 18 jul. 2026.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.






