Pochmann: O atraso brasileiro frente ao mundo em transe

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Mais que receituários neoliberais ou volta ao velho desenvolvimentismo, o Brasil precisa se conectar ao futuro e apostar em ciência e tecnologias. Mares e espaço sideral, as novas fronteiras econômicas das potências globais, dão pistas do desafio

O Brasil parece ter desaprendido de cuidar do seu futuro. Prisioneiro do neoliberalismo, o país segue consumido pelos impasses e emergências do curtoprazismo.

São vários anos de uma economia em rumo descendente, que passou da sexta maior do mundo para a décima-terceira posição no ranking global. Mas isso não significa que tudo tenha sido retraído, uma vez que a transformação da estrutura produtiva industrial brasileira em plataforma de valorização financeira do grande capital interno e externo torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

No capitalismo da atualidade, cada vez mais para poucos, o determinante tem sido o receituário neoliberal. Em sua primeira fase, durante a Era dos Fernandos (Collor, 1990-1992, e Cardoso, 1995-2002), cerca de 1/3 da população foi convertida em “inempregáveis”, conforme o presidente Fernando Henrique Cardoso alertou na abertura do Seminário Internacional sobre Emprego e Relações do Trabalho realizado em abril de 1997 em São Paulo.

Atualmente, em pleno curso da segunda fase do neoliberalismo, a massa sobrante do capitalismo para poucos, patrocinada por Temer e Bolsonaro, ameaça perfazer 2/3 da população. Isso, é claro, ao ampliar a contabilização do que se compreende por desemprego aberto, adicionado pelas várias formas disfarçadas de esconder a redundância do trabalho às necessidades dos patrões.

Diante disso, nada parece acontecer, sobretudo no plano das ideias do Brasil oficial, que assiste ao aprofundamento da desigualdade de renda e riqueza, do rebaixamento do padrão de vida, da precarização da ocupação, da destruição ambiental, da fome. A imutabilidade do diagnóstico prevalece, sem autocrítica dos defensores do receituário neoliberal, especialmente em relação ao enorme descompasso entre a retórica das promessas e a realidade posta.

O debate econômico segue empobrecido nos dias de hoje, revelando o quanto a guerra de oposições ideológicas se mostra infrutífera ao sentido de futuro que se encontra em disputa no mundo. De um lado, a preguiça daqueles que defendem a destruição do paradigma pretérito do desenvolvimentismo, acreditando que o espontaneismo das forças de mercado seria, por si próprio, suficiente para protagonizar o novo.

De outro, a perspectiva do retorno ao normal anterior, muito melhor, certamente, que a atualidade vivida pelo conjunto da população. Todavia, corre o sério risco da decrepitude sem compreender que o passado não mais se conecta às necessidades do presente e do futuro, especialmente em relação às fontes novas de expansão econômica no mundo.

A ausência de panoramas prospectivos sobre as possibilidades brasileiras indica certo desconhecimento a respeito das possibilidades de exploração da economia do mar e do espaço sideral. Enquanto o tema do mar permanece distante, perceptível apenas em sua superfície a partir da longa costa brasileira, o que está no seu fundo segue pouco conhecido, com menos de 5% até agora monitorado.

Da mesma forma em relação à economia do espaço, que se estrutura em dois segmentos distintos: o espaço-terra e o espaço-espaço sideral. No segmento espaço-terra, que compreende a dimensão de até 100 km da superfície do mar, operam meios de transportes de cargas e humanos tradicionais, como aviões e helicópteros, e cada vez mais os satélites, que respondem por cerca de 2/3 do faturamento obtido por atividades econômicas realizadas no espaço a serviço da terra. As big techs, enquanto corporações transnacionais a operar o processo de datificação, tornaram os negócios mais valorizados dos mercados, expresso por suas grandiosidades nas bolsas de valores.

Para além da linha Kármán, acima dos 100 km da superfície da Terra, expande-se o segmento espaço-espaço sideral movido por via tanto das empresas privadas em parceria com as agência governamentais nos Estados Unidos, como por ação do Estado chinês em parceria com empresas privadas. As duas principais fontes de riqueza provém da exploração de recursos naturais através da mineração de produtos raros (platina, ouro e outros) em meteoros e usinagem do hélio 3 na lua.

O acesso aos recursos naturais no espaço visa servir de combustível às naves, água para os futuros colonizadores e componentes de infraestrutura para a exploração do espaço sideral. As estimativas de ganhos extraordinários têm sido motivo de fortes investimentos privados e públicos em poucas nações no mundo.

Além disso, destacam-se os serviços de lançamento de foguetes, armazenamento de combustível, base espacial e pesquisa e desenvolvimento científico de grande monta. Não parece haver limites acerca das possibilidades de exploração das fontes novas de riqueza, a orientar os segmentos da economia do espaço sideral.

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