Abril Vermelho: aos pobres, as batatas?

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Dois projetos disputam hoje o futuro do campo brasileiro. Sem-terra são demonizados ao propor Reforma Agrária com virada agroecológica. Mas as periferias são invadidas por marketing maciço que difunde o “frescor” dos ultraprocessados

Nos últimos meses, vários municípios do país vêm recebendo a visita de um veículo que imita os tradicionais caminhões de hortifrutis que oferecem alimentos nas periferias. Só que ali não há uma só fruta ou hortaliça à venda. O que há é a distribuição gratuita de uma leva de pacotes plásticos coloridos, cada um com uma porção de um produto ultraprocessado cuja propaganda anuncia que leva só batata, óleo e sal. Será mesmo?

O lema que os marqueteiros escolheram para a ação publicitária feita por uma marca de salgadinhos industrializados pode nos dar algumas pistas sobre a resposta que buscamos: “Do campo ao pacote em 48 horas”. São apenas dois dias para que as batatas colhidas na plantação cheguem até as unidades da empresa e se transformem em produtos ultraprocessados embalados e prontos para o consumo – que seguirão para os mercados de todo o país. Por trás dessa velocidade, há um sistema eficiente de produzir em grande escala dentro de padrões definidos, algo que, definitivamente, não tem a menor relação com a forma da natureza brasileira gerar seus frutos.

Longe da ideia de frescor e harmonia com a roça que o slogan induz, o que existe são imensas monoculturas de batata inglesa, soja e milho, sendo os dois últimos espécies transgênicas e, provavelmente, matéria-prima para o óleo usado na produção dos salgadinhos. O impacto no ambiente desses cultivos inclui o derramamento de toneladas de agrotóxicos e fertilizantes químicos à base de petróleo nos solos, nas águas e sobre os outros incontáveis tipos de plantas e animais que habitam o nosso território megabiodiverso. Um belo estrago antes mesmo de chegar às fábricas. Isso sem falar nas embalagens que terão que ser produzidas a partir de materiais não renováveis extraídos de forma brutal de nossa Pachamama.

Do mesmo modo, depois que os ingredientes são processados e empacotados, o estrago que será gerado pelo seu produto terá grandes proporções, só que, dessa vez, no bolso e na saúde da população. É que a inocente composição de batata, óleo e sal esconde uma fórmula criada sob medida para viciar o paladar das pessoas e fazer com que prefiram consumir os salgadinhos ao invés de alimentos mais nutritivos. Ponto para a epidemia de DCNT – doenças crônicas não transmissíveis – que assola o mundo!

Desempacotando a comida

Mas agora vamos dar uma guinada de 180 graus e olhar para outra lógica agroalimentar, a que é praticada por famílias camponesas em sintonia com os biomas de seus territórios. Nada de monocultura de batata envenenada ou grãos transgênicos aqui e, sim, o cultivo de raízes, legumes, frutas e verduras a partir do cuidado com a fertilidade do solo e da busca do equilíbrio entre espécies da flora e da fauna do local. Esse é o modelo proposto pela Agroecologia e nele não há prazos de 48 horas para empacotar nenhum ultraprocessado.

Felizmente, depois de vários anos de agonia frente a um governo de índole agrofascista, a agricultura familiar de base agroecológica está voltando a ter espaço no orçamento e na agenda do país. A retomada do Ministério de Desenvolvimento Agrário, com o aumento dos recursos para os programas de compras públicas como o PNAE e o PAA; a recriação do CONSEA; a abertura de editais para pesquisa e assistência técnica rural… tudo isso traz novas energias para que a comida de verdade possa chegar ao prato do povo.

Mas há uma ação fundamental que ainda segue na retranca: a democratização massiva do acesso à terra. Sim, estamos falando da reforma agrária, o instrumento que pode dar uma virada real no modelo de produção e garantir uma sociedade sem fome, sede e destruição ambiental. Se temos o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar] na ativa novamente, temos, do outro lado, o MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – com poderes e recursos muito maiores e dominado pelo mesmo agronegócio de sempre – um pouco menos explícito e agressivo nos métodos que usa, talvez, mas que já conseguiu a liberação de mais de 100 agrotóxicos este ano!

E, por falar em agressividade, estamos em abril e este é um mês de luta contra a violência no campo. Há 27 anos, 21 camponeses que se manifestavam pelos seus direitos foram assassinados em um ato brutal que ficou conhecido como o Massacre de Carajás. Para não esquecer esse crime e marcar os motivos pelos quais ainda é preciso lutar, os movimentos campesinos realizam, todos os anos, o Abril Vermelho. Durante todo o mês há a realização de manifestações que reforçam a exigência do cumprimento de algo que está na Constituição: a função social da terra.

E nossa lei não deixa dúvidas: o direito à propriedade não está acima do direito à vida. Toda terra em que há destruição da natureza, exploração de trabalhadores e improdutividade está sujeita a expropriação para ser destinada à reforma agrária. Sabemos que há um imenso número de propriedades nessas condições e que, do outro lado, há milhões de pessoas sem acesso a um pedaço de chão para semear.

Ocupar mais do que territórios 

O lema deste Abril Vermelho reflete exatamente o que nossa constituição assegura e ecoa os recentes casos de abusos contra agricultores e natureza: “Reforma Agrária contra a fome e a escravidão: por terra, democracia e meio ambiente”. E a Jornada Nacional de Lutas já está mobilizando trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra de todo o país. Através de marchas, protestos e ocupações de territórios estratégicos, ela reivindica que o poder público e a sociedade tomem as medidas que assegurem os direitos do povo do campo.

Mas as forças da elite agrária – que suga nossos biomas há séculos e que nunca aceitou a ideia de democratização de terras e recursos – também já se manifestam, e os discursos que incriminam os movimentos sociais povoam a mídia comercial. Como dinheiro não falta para o setor, já que ele vive às custas de gordos subsídios públicos, houve até mesmo o pagamento de anúncios que atacam diretamente o MST. A campanha foi bancada pelo instituto Pensar Agro, organização que reúne entidades nacionais, como a Fiesp e a Associação Brasileira do Agronegócio, mas que é apoiada financeiramente por gigantes mundiais, como Nestlé e Bayer.

A toada é sempre a mesma: acusar os movimentos sociais de causar destruição e desordem ao “invadir” propriedades privadas, o que prejudicaria a produção e agravaria a fome no país. A falácia já foi amplamente desmontada ao mostrarmos que as áreas escolhidas não cumprem a função social da terra e que as ocupações são o motor da reforma agrária, pois, sem elas, a constituição não seria cumprida e a concentração fundiária seguiria reinando impunemente com suas diversas formas de violação das leis e de violência contra a vida. Além disso, o agronegócio se concentra em produzir commodities, o que, do modo como é feito, é – por si mesmo – um fator gerador de fome.

Sim, é necessário ocupar espaços físicos do território brasileiro porque, ao fazer esse tipo de ocupação, os movimentos campesinos conseguem abrir caminhos para ocupar outros tipos de espaço: o da agenda e o do orçamento do país! Se o governo mesmo reconhece, como já disse o presidente Lula, que ele, como o feijão, só funciona na base da pressão, o instrumento que o povo tem para pressioná-lo é sair às ruas e marcar presença onde será notado, o que ainda rende mais repercussão na mídia do que as milhares de toneladas de alimentos saudáveis que a produção dos assentamentos e acampamentos campesinos vem fornecendo para a sociedade brasileira – muitas vezes em forma de doação aos seus setores mais vulneráveis.

É por isso que precisamos apoiar a luta pela democratização da terra e pelas políticas públicas que garantam as condições de quem nela trabalha de produzir comida de verdade e de viver com qualidade. Nesse universo agroecosolidário, não há espaço para a circulação de caminhõezinhos de ultraprocessados transgênicos – repletos de gordura e sal – pelas comunidades do país. Suas embalagens, que reúnem calorias vazias, degradação ambiental e exploração humana, não vão nos enganar com sua propaganda abusiva.

Os “pacotes” que queremos são os que contenham políticas públicas para fortalecer a agricultura familiar e gerar comida saudável, nutritiva e saborosa para a população. Basta de empacotar nossos sonhos para serem despachados rumo a um futuro que nunca chega, enquanto a elite corporativa da cadeia agroalimentar suga o que ainda resta de fertilidade planetária. A hora é já: ocupar os espaços aos quais temos direito é o único modo de transformar a realidade injusta que o marketing antiético, como o da campanha aqui citada, vem tentando disfarçar.

Fora food-washing! Salve a Reforma Agrária Agroecológica!

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