Artigo – O vírus do individualismo

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Combater pandemia requer o que mais nos falta, solidariedade

[Contém ironia]. Chegou em nós a pandemia, me disseram. Por nós, presumo que seja os 10% mais ricos do país (R$ 5.000 por mês ou mais). Ouço rumores de guerras por papel higiênico nos Jardins.

Não tem Lollapalooza. Não tem Disney. Não tem Broadway. Não tem Veneza, não tem Barcelona. Não tem real que pague o dólar a R$ 5. Caos.

Façamos todos home-office. Restou a nós viver dentro dos nossos Macbooks vendo a vida lá fora por meio das reuniões virtuais tediosas. Torcendo, ao lado do cinismo guedesiano, para que as reformas estruturais nos salvem da pandemia. Sem precisarmos rever meta fiscal, ou solicitar créditos extraordinários, ou rever o novo regime fiscal que tende à redução do financiamento do SUS (em 2019 foram R$ 9 bilhões a menos) por conta da mudança do cálculo.

Restou a nós o isolamento. Menos para a empregada doméstica. Ela, se não tiver ido pra Disney, ela, que é praticamente de casa, segue trabalhando mesmo para o casal em quarentena. Ela, cujos filhos estão agora sozinhos em casa sem ter com quem deixar.

Esforços coletivos padecem sempre do mesmo dilema clássico: limitação informacional.

Cada indivíduo possui informações incompletas da realidade. Permitir que a soma das vontades individuais dite como reagir a uma pandemia que, por definição, exige coordenação, expõe a doença do nosso individualismo.

O beabá econômico nos diz: a culpa da escassez é justamente sua, ávido comprador de papel higiênico.
Combater pandemia requer o que mais nos falta: solidariedade. E é baseado nela que progressistas construíram sistemas públicos —de saúde, previdência e educação. O Fórum Econômico Mundial de Davos alertou que a pandemia em países sem sistema universal, como os EUA, pode gerar ainda mais pobreza.

Por aqui, a ausência de leitos no SUS requer de nós solidariedade e cautela: sistema de saúde colapsará se todos, em especial os assintomáticos, a ele recorrerem ao mesmo tempo.

Condições subumanas estruturais —como metade da população sem saneamento básico— atingem em especial os mais pobres, tornando-os mais vulneráveis à pandemia.

Cidades desiguais e sem mobilidade urbana adequada impõem a muitas pessoas longas viagens diárias e, portanto, maior exposição.

Desmantelar os sistemas de solidariedade construídos a tanto custo —como por meio da uberização sem garantias trabalhistas— significa que para muitos não trabalhar em tempos de pandemia significa também não receber.

Coronavírus é sério e requer cuidados imediatos.

Quanto ao indivíduo, responsabilidade nas escolhas que fazemos: seja nas interações sociais com os mais velhos, seja nas compras no supermercado, seja na higiene pessoal, seja ao evitar aglomerações.
Requer, ainda, um olhar atento para além dos nossos umbigos: quais são as condições estruturais que colocam outros em situação mais vulnerável?

Para responder a esta pergunta, sem a parcela competente e a técnica do funcionalismo que temos na área da saúde, estaríamos à mercê deterraplanistasnão-vacinados. Não estamos.

Individualismo não é o remédio para a pandemia que o coronavírus nos impõe.

Thiago Amparo – Advogado, é professor de políticas de diversidade na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos humanos e discriminação.
 

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