BC atrapalha economia e mantém juros mais altos do mundo

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Na contramão da visão de economistas, empresários, trabalhadores e do governo, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu manter a taxa de juros Selic em 13,75% ao ano, adiando a necessária queda. A decisão foi unânime.

Com a decisão, o Brasil se mantém no topo da lista dos mais elevados juros reais do mundo, com 9,57% (descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses de 4,18%), bem à frente do México (6,13%).

O BC atribui a decisão ao “ambiente externo” que “se mantém adverso, ainda que com revisões positivas para o crescimento do ano”.

“Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores mais recentes de atividade econômica segue consistente com um cenário de desaceleração da economia nos próximos trimestres”, admite a nota divulgada pelo BC.

“O Comitê ressalta que, em seus cenários para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções” (alta e baixa). O Copom “reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas” e avalia que “a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária”.

“Essa política derruba a atividade econômica, deteriora o mercado de trabalho e a renda, aumenta o desemprego e diminui a capacidade de consumo das famílias e, mais, reduz a confiança e os investimentos dos empresários, o que compromete a capacidade de crescimento econômico futuro”, protesta o presidente da Força Sindical, Miguel Torres.

Pouco antes da divulgação da decisão do Copom, um grupo de 51 integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável (CDESS, o Conselhão) divulgou uma carta pública ao presidente do BC, Roberto Campos Neto, e aos diretores cobrando uma redução.

Entre os empresários que assinam a carta estão Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e o presidente da Fiesp, Josué Gomes.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também criticou a manutenção da Selic, em nota a entidade destacou que a decisão afeta o desempenho da atividade produtiva no país e impacta diretamente o setor da construção.

“Lamentamos que a taxa seja mantida, mais uma vez, nesse patamar exorbitante. Isso está claramente afetando o desempenho da atividade produtiva no país, justamente ela que gera renda e emprego. Particularmente, a indústria da construção está sendo muito impactada por esse juro elevado”.

Dados divulgados pela CBIC mostram a queda de 30,2% dos lançamentos imobiliários nos primeiros três meses deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. A entidade ainda destacou que deve revisar a projeção de crescimento do setor para 2023. “O cenário com menor pressão inflacionária, a melhoria das expectativas e a redução de incertezas com a aprovação do arcabouço fiscal pela Câmara dos Deputados demonstra que ou reduzimos os juros ou continuaremos a atrasar o crescimento do país”, disse a entidade.

De acordo com a economista da CBIC, Ieda Vasconcelos, a taxa de juros elevada é o principal problema que vem sendo enfrentado pela construção. “É certo que no atual patamar a taxa desestimula os investimentos produtivos. O desempenho do mercado imobiliário reflete isso. Dados do Banco Central indicam que a caderneta de poupança, uma das principais fontes de financiamento imobiliário, já perdeu, nos primeiros cinco meses de 2023, mais de R$ 56 bilhões. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) os financiamentos imobiliários com recursos da caderneta de poupança apresentaram queda de 34,6% em abril, em relação a março deste ano. Dados preocupantes e que adia para agosto a expectativa do início do ciclo de afrouxamento monetário”, disse.

Analistas comentam decisão e o que esperar para os investimentos em renda fixa e variável

Para Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil Investimentos, o tom do comunicado veio mais hawkish (que indica uma postura de combate à inflação por meio do aumento dos juros) que o esperado. Mas suave, se comparado aos comunicados das reuniões anteriores. O Copom, no comunicado, reforçou que segue adotando “cautela e parcimônia”, muito por conta do processo desinflacionário ser mais lento que o previsto, e também pelas expectativas de inflação ainda estarem bastante desancoradas, o que pede vigilância do Comitê, para ainda manter os juros no patamar atual.

SEM SINALIZAÇÃO DE CORTE DE JUROS NA PRÓXIMA REUNIÃO

Segundo o analista, chama a atenção no comunicado o fato de o comitê ainda não sinalizar que teremos corte de juros na próxima reunião, o que vai contra o que o mercado esperava e revela o tom hawkish do comunicado. “Todavia, na minha visão, o cenário atual está melhor que o esperado e isso deve se materializar em corte em algum momento no ano de 2023”.

Destaque para as pressões inflacionárias globais que seguem fazendo peso no Brasil, e no mundo, e tem contribuído também para a alta de preços locais. Ficou como ponto de atenção a “dúvida” em relação ao desenho final do arcabouço fiscal que ainda vai ser aprovado pelo Congresso Nacional, e como ele vai impactar em relação às expectativas para as trajetórias da dívida pública e da inflação. A falta de convergência para a meta inflação no mundo, em especial no Brasil, as incertezas sobre a crise bancária nos EUA, e o nível de crescimento das economias, “obrigaram” o Comitê a manter a Selic no patamar atual, como já era esperado pelo mercado.

“Na minha opinião, devemos ter a manutenção da Selic na próxima reunião em agosto, em que deve haver a sinalização de quando o corte pode ocorrer. Ao que tudo indica e como não houve sinalização neste comunicado, esse corte se dará muito provavelmente na reunião de setembro. O Copom está bem assertivo no discurso e não vai mudar agora”.

Como ficam os investimentos agora em renda fixa?

Segundo Ana Paula Carvalho, planejadora financeira e sócia da AVG Capital, apesar de haver perspectiva de cortes nas taxas de juros a partir do segundo semestre, a aplicação em renda fixa pós-fixada continua valendo a pena para papéis de até 2 anos, pois a taxa deve cair, mas de forma moderada de acordo com o último boletim Focus, no qual a maior parte do mercado acredita que a taxa Selic chegue no final do ano em 12,5%, um patamar alto de taxa de juros e ainda distante de chegar em um dígito, como estávamos em 2021.

A partir daquele momento houve a necessidade de subir as taxas, sendo a inflação o principal fator devido aos problemas causados com a pandemia, paralisando toda cadeia produtiva mundial. Apesar da nossa inflação estar se mostrando mais contida, o BC segue vigilante.

“Na minha opinião, os títulos prefixados estavam mais atrativos há alguns meses, quando o mercado ainda não enxergava a queda da taxa Selic. Com os últimos dados de inflação e a possibilidade de queda dos juros, as curvas futuras caíram e as taxas dos títulos prefixados acompanharam essa queda. Desta forma, os títulos com maiores prêmios são os de longo prazo, de 4 anos ou mais, porém aqui o risco é maior, pois envolve muitas incertezas no meio do caminho, como alta de inflação, uma política fiscal expansionista ou mudanças na condução do BC, o que levariam a necessidade de subir novamente a Selic”, explica a analista.

“Por conta disso ainda prefiro manter a posição de renda fixa com maior exposição à títulos pós-fixados e inflação”.

Para Lis Grassi, especialista em investimentos e sócia da Matriz Capital, o mercado já está precificando que a Selic venha a cair num futuro breve. Portanto, as taxas Prefixadas que temos hoje já estão menores do que as que víamos alguns meses atrás, “de 13%…14% ao ano. Se a Selic permanecer nos 13,75% provavelmente elas permanecerão nesse mesmo patamar”. Segundo Grassi, quando a Selic estiver mais baixa, a tendência é que essa rentabilidade caia também.

“Já o Tesouro Selic, que caminha junto com a Selic, vai continuar rendendo a Taxa SELIC vigente + um prêmio, por exemplo SELIC + 0,08% a.a. Esse prêmio tende a ficar um pouco maior se a Selic cair muito, pra compensar a menor rentabilidade na taxa de juros”, afirma.

E no Tesouro IPCA+ o investidor tem a correção da inflação + uma taxa Pré, por exemplo IPCA + 6%. Essa taxa Pré, que chamamos de Juro Real, também tende a ser menor quando a Selic está menor, portanto, se nos próximos meses o nosso juro cair, como esperado, vai ser difícil encontrar um título do tesouro pagando 6% acima do IPCA.

Os títulos de crédito privado, chamados de Debênture, CRA e CRI geralmente dão rentabilidade mais atrativa do que o Tesouro porque o risco é maior. Quando você compra um título do Tesouro você está emprestando seu dinheiro pro Governo e muito dificilmente ele vai quebrar e não te pagar. Quando você investe num crédito privado você está emprestando o seu dinheiro para empresas privadas e assumindo o risco delas, portanto é muito importante avaliar qual é essa empresa, o rating dela no mercado (uma tabela de avaliação de confiança), o caixa dessa empresa, se há garantias… enfim, vai depender do perfil de investidor optar por um risco x retorno maior. No longo prazo, a diferença de rentabilidade costuma ser bem significativa, mas também já vimos caso da empresa ter dificuldades financeiras, como aconteceu recentemente com as Lojas Americanas e a Light.

O Tesouro Renda + vem pagando atualmente a correção da inflação + uma taxa Prefixada de cerca de 5,5%. O racional é o mesmo do Tesouro IPCA+, porém visando longo prazo, aposentadoria, pois nele você vai adquirindo cotas no decorrer de um determinado prazo, escolhido pelo investidor, e depois recebe uma renda mensal durante 20 anos, quando for fazer o resgate.

“Não podemos fazer uma comparação generalizada com previdência privada, pois existem muitos fundos de Prev que não tem boa gestão e vêm rendendo muito pouco, assim como existem outros, de gestores mais ativos, que pagam excelentes resultados. Porém, um detalhe importante: no Tesouro Renda + o investidor não pode mobilizar o dinheiro de um título pra outro. Já na previdência privada ele pode fazer portabilidade de um fundo para outro, de diferente classe, quando quiser. Por exemplo, hoje com a Selic alta é interessante ter uma previdência Pós-fixada. Quando a Selic estiver dando retorno muito baixo, o investidor pode migrar a prev para outro fundo multimercado ou de ações, se ele quiser”, explica a analista.

E continua: “Dentro do nosso leque de clientes aqui na Matriz Capital (XP Investimentos) não tivemos adesão ao Renda +, porém não deixa de ser uma alternativa praquele investidor iniciante, que não tem assessoria personalizada e que consegue investir cerca de R$ 31 por mês, que é o preço médio deste título atualmente”.

Caio Canez de Castro, sócio da GT Capital, explica que éÉ bem claro o cenário de queda da inflação e os dados de IPCA dentro da meta há dois meses corroboram com as perspectivas de queda de juros. Isso tem deixado a taxa de juros real muito elevada, ou seja, a diferença entre os dados de IPCA e Selic está muito acima do que é considerado saudável para a economia e, por isso, o mercado aguarda convicto uma redução da taxa de juros, tendo cortes entre 0,25% e 0,50% para as próximas reuniões do COPOM a partir de agosto.

Apesar de ser uma janela de oportunidade que está se fechando, as melhores oportunidades de ganho estão nos investimentos de longo prazo, atrelados ao IPCA, como o Tesouro IPCA + ou os títulos de crédito privado como CRA, CRI e debêntures. Estes investimentos pagam a variação da inflação e mais uma taxa préfixada, que atualmente estão nos melhores níveis históricos, ou seja, uma boa oportunidade para garantir rentabilidades superiores ao mercado no futuro. Para os investidores com pouco capital ou que estão começando, a recomendação é a mesma, aproveitar a oportunidade para “travar” as melhores taxas hoje, porém com uma ressalva, priorizar fazer o maior número de aportes nas suas reservas de emergências que for possível, pois com a alta taxa de juros o efeito da rentabilidade nos investimentos será muito maior e o acúmulo de capital será potencializado.

Como ficam os investimentos agora em renda variável?

De acordo com Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos, já há algum tempo vale ainda mais pensar em renda variável, não só porque os juros estejam caindo, mas porque também a bolsa pode subir com essa queda dos juros. E mesmo que os juros não caiam tão rápido agora, a gente sabe que a bolsa é sempre uma expectativa do que vai acontecer de dois meses até seis meses adiante.

“Então, se a expectativa é que os juros caiam daqui a dois meses pra frente, a bolsa já começa a subir desde agora. É muito interessante a gente estar posicionado com certeza em bolsa, mas não quer dizer que os títulos de renda fixa deixem de ser atrativos. Então, eu acho que é um momento interessante sim, agora que a bolsa atingiu o bull market, para a gente ter uma parcela de acordo com obviamente o perfil do investidor, uma parcela locada alocada em bolsa”.

De acordo com o analista, é sempre bom diversificar e é sempre bom você escolher de acordo com o seu perfil de investidor. Se é uma pessoa mais ativa e consegue fazer movimentações, tem esse conhecimento, eu acho que vale a pena fazer algum investimento um pouco mais sofisticado. Agora, se é uma pessoa que não tem tempo e não tem conhecimento, aí eu acho sim que vale a pena pensar em escolher fundos de investimento ou ativos menos voláteis.

Para Apolo Duarte, head de renda variável e sócio da AVG Capital, até o momento IBOV acumula alta de 9,70% em 2023. Muito da melhora macro já vem sendo precificado pelo mercado desde maio. Para que bolsa continue subindo com força é necessário ter uma continuidade da queda de juros e melhora de setores domésticos.

Empresas de consumo podem se beneficiar desse cenário, assim como construção civil. Mas é importante gerenciar o risco porque qualquer mudança de cenário pode causar uma realização forte nesses setores.

Se economias dos países desenvolvidos melhorarem, o petroleo também pode continuar melhorando, assim como as empresas do setor.

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