BNB negocia inclusão de mais R$ 4 bilhões para o Fundo Constitucional do Nordeste

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O orçamento do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) para este ano, hoje em R$ 23,7 bilhões, deve receber incremento de mais R$ 4 bilhões até junho. O martelo final sobre o aporte e como será feita a distribuição dele entre os setores e os estados será dada na próxima reunião do Conselho Deliberativo da Sudene (Condel), prevista para maio. A informação é do presidente do BNB, Romildo Rolim, que destaca que a meta até o final do ano é fazer o volume aplicado superar a marca recorde de R$ 32 bilhões, obtida ano passado. Em entrevista exclusiva ao O POVO, ele fala sobre o atual momento da economia, os novos mercados que estão crescendo, a relação com o Governo Federal e o futuro do banco. Para ele, mesmo com a demora nas nomeações, não há chance de incorporação pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Nunca houve nenhum tipo de conversa do Governo Federal sobre este assunto para a presidência do banco ou com algum diretor ou membro do conselho de administração. Esta agenda não existe e se existiu fora do banco, desconheço”. Confira:

O POVO – A economia está ainda em processo de recuperação lenta. Como o Banco do Nordeste (BNB) vem sentindo isso na Região do ponto de vista da demanda?

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Romildo Rolim – No ano passado iniciamos com o propósito de cumprir todo o orçamento das aplicações do Banco e conseguimos. Logicamente, não conseguiríamos fazer sem a outra ponta, que é quem tem interesse em fazer o crédito. E nós não fazemos crédito aqui com irresponsabilidade, fazemos realmente para os projetos que são econômico e financeiramente viáveis. E vimos que, no ano passado, surgiu uma demanda maior, o nível de confiança dos empresários, em todos os setores, melhorou bastante. É uma curva ascendente, mesmo nos menores segmentos, dos empreendedores informais. Ainda temos milhões de desempregados, mas mesmo eles são empreendedores, estão se virando de qualquer forma.

OP – Mas o senhor se refere a manifestação de interesse ou contratações concretas mesmo?

Romildo Rolim – A demanda já está maior do que temos a oferecer em termos de orçamento. Por exemplo, já estamos olhando para a contabilidade do FNE para ver o que está sobrando na tesouraria e que não está na programação orçamentária aprovada pelo Condel (Conselho Deliberativo da Sudene Condel), e estamos procurando o Ministério de Desenvolvimento Econômico para poder dizer que temos mais R$ 4 bilhões para colocar na programação do FNE para que se diga onde iremos aplicar, se no agronegócio, indústria, comércio , serviços. Porque estão vindo recursos, temos demanda e esses recursos, se a gente não aprovar, não colocar dentro da programação orçamentária, estamos dizendo que ainda não os temos.

OP – Este ano está previsto quanto para ser aplicado no Nordeste?

Romildo Rolim – Está previsto inicialmente R$ 23,7 bilhões no Nordeste inteiro. No ano passado também começamos com R$ 23,7 bilhões e fomos fazendo ajuste na programação até chegamos a R$ 32 bilhões. E poderíamos ter chegado a R$ 36 bi.

OP – Mas a ideia seria aportar quanto a mais agora e até o final do ano?

Romildo Rolim – Seria entre R$ 3 e R$4 bilhões , acho que até o final de junho teríamos em torno de R$ 27 bilhões. Até o final do ano, a gente acredita que pelo nível de adimplência que estamos conseguindo ter, que é a pontualidade do pagamento dos clientes, o controle e a gestão que está sendo feita em todas as carteiras, vamos fazer, no mínimo, a aplicação do ano passado.

OP – E quanto viria para o Ceará?

Romildo Rolim – Para o Ceará está previsto no orçamento em torno de R$ 3,4 bilhões e mais R$ 1 milhão de FNE infraestrutura, mas isso pode aumentar. Na verdade, os R$ 8 bilhões previstos para infraestrutura não são carimbados por estado. Se um estado tiver maior demanda que o outro pode realocar. O que vem a mais depende do que for decidido no Condel.

OP – Qual a maior demanda que vem hoje do Ceará?

Romildo Rolim – A demanda do Ceará é principalmente comércio e serviços. Metade da demanda foi isso. O restante se divide entre turismo, agronegócio, industria.

OP – Em termos de volume de recursos, quanto disso hoje vai para os pequenos?

Romildo Rolim – Só no Ceará, dos R$ 8 bilhões empregados no ano passado, 56 % foi para micro, mini e pequeno produtor. E 15% para médio e apenas 29% para grande. Isso fora Crediamigo, que aí que pulveriza mais. Hoje 90% dos nossos clientes são mini, micro e pequenos produtores.

OP – O Governo Federal fez recentemente alterações na Lei Rouanet e reduziu o valor por projeto de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão para pulverizar a distribuição dos recursos e assim beneficiar mais os pequenos. Há alguma mudança prevista na metodologia do Banco para pulverizar ainda mais esta distribuição?

Romildo Rolim – O que estamos sempre fazendo é nos aperfeiçoar. Dentre os nossos posicionamentos está fazer um FNE cada vez melhor, preferencialmente para micro e pequeno produtor; sempre em conformidade com os indicadores e normativos. E o segundo é manter-se na liderança do microcrédito. Hoje já somos o maior da América Latina.

OP – Este ano estão previstas novas linhas de financiamento?

Romildo Rolim – O que a gente vai fazer este ano é consolidar esta questão de dar celeridade ao atendimento, incluindo também os clientes do Crediamigo nos canais digitais. E já podemos dizer que o BNB é um banco digital, a gente abre conta, faz cadastro, contrato, renegocia, principalmente para micro e pequena empresa, e mesmo esta questão do microcrédito já vai poder fazer pelo smartphone.

OP – O senhor falou do mercado de energia renováveis. Este é um mercado que tem crescido muito. Só nas exportações o volume de pás eólicas cresceu mais de 600% este ano. Como o BNB entra neste setor de energia hoje? A maior parte dos financiamentos são para os grandes parques ou o foco é a geração distribuída?

Romildo Rolim – A geração distribuída é o nosso foco a partir deste ano. Dos R$ 32 bilhões do FNE, R$ 16 bilhões foram para infraestrutura, que inclui energia, aeroportos, água e saneamento.

OP – Mas vocês estão percebendo o crescimento desta demanda no Nordeste?

Romildo Rolim – Temos uma demanda não atendida porque o orçamento é inferior à demanda que já existe. Tem todo um trabalho que estamos fazendo para colocar mais orçamento nesta área.

OP – No Nordeste, em quais estados estão as maiores demandas por energia?

Romildo Rolim – Os principais estados são aqueles que já têm as questões naturais a favor. Ceará , Rio Grande do Norte e Bahia têm muitos estudos comprovados sobre isso. Na parte da demanda, isso também se repete. No ano passado, dos R$ 16 bilhões de contratações em infraestrutura, 30% foi energia eólica, 19,7% solar e o restante fica pulverizado entre saneamento, petróleo e gás, e aeroportos. Outra questão que a gente quer fazer muito fazer é saneamento.

OP – E como estão as negociações com a Aena Desarollo Internacional em relação ao Aeroporto de Juazeiro do Norte?

Romildo Rolim – A gente já fez contato no dia do leilão e eles estão conversando com as áreas negociais para o Banco do Nordeste financiar.

OP – Mas já está certo que vai ser o Banco?

Romildo Rolim – Acho que sim

OP – Mais de cem dias depois de ter iniciado o novo Governo, agora é que se começou a falar sobre negociação de cargos no Congresso e o futuro do banco. O senhor já teve alguma reunião com o ministro da economia Paulo Guedes para tratar disso?

Romildo Rolim – Sobre este assunto do banco não. Tivemos com o Salim Mattar, que é a pessoa mandatária para cuidar das estatais. Tivemos com ele para falar de vários assuntos, acho que umas cinco reuniões ocorreram, ontem mesmo estivemos lá.

OP – Mas alguma delas para falar sobre o futuro do banco ou a questão de distribuição de cargos?

Romildo Rolim – Trabalhamos sempre sobre os números do banco, a performance, Crediamigo, ações prioritárias, eficiência do banco, a questão da redução da inadimplência, melhoria da carteira, redução de despesas administrativas, mostrando números.

OP – Mas o senhor acredita que o risco de o BNB ser incorporado ao BNDES persiste?

Romildo Rolim – Nunca houve nenhum tipo de conversa do Governo Federal sobre este assunto com a presidência do banco, com algum diretor ou membro do conselho de administração. Esta agenda não existe. Se existiu fora do banco, eu desconheço. Estamos trabalhando aqui como se a gente fosse viver mais 67 anos.

OP – Este Governo tem tido uma demora mais acentuada que as gestões anteriores para definir esta questão das nomeações em relação ao BNB. Em que medida o senhor percebe isso? Ainda que para tratar da sua permanência ou eventual substituição, sente de alguma forma descaso do Governo Federal com o Nordeste?

Romildo Rolim – Não sinto. O Governo é novo, está tomando conhecimento, vendo, o Brasil é muito grande. É um Brasil que tem grandes frentes de assunto para cuidar e é isso que está sendo feito mesmo. Não é só o Banco do Nordeste, são várias instituições que ainda não foram tratadas esta questão de sucessões. E estas pessoas que estão nas instituições estão cuidando do trabalho até que haja substituição ou não. Cada coisa acontecendo no seu momento mesmo. Não acho que seja descaso não, até porque o Governo é responsável. E se fosse descaso, seria dizer que eles não estão acreditando no trabalho que estamos fazendo, o que seria contraditório com o que estou dizendo, porque estamos fazendo um trabalho bem feito, aumentando a eficiência. Acho que estão confiando no que a gente está fazendo, até que haja alguma decisão diferente. E se houver uma decisão diferente, somos soldados e empregados do banco e sabemos que mandato é mandato e tem começo, meio e fim. Vamos obedecer e fazer conforme vier a decisão.

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