Caos de Manaus deve se repetir em outras cidades, alertam especialistas

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São Paulo – O caos registrado em Manaus, que sofre com a falta de leitos e oxigênio para pacientes de covid-19, deverá se repetir em outras cidades do Brasil. Especialistas alertam que a falta de ações mais duras para frear a pandemia, somada à negligência do presidente Jair Bolsonaro, coloca em risco a capacidade de atendimento do sistema de saúde, que não deve suportar a demanda.

Na capital do Amazonas, faltam leitos e o sistema de saúde e funerário já enfrenta colapso. Nesta quinta-feira (14), hospitais pediram socorro pela falta de oxigênio para tratar seus pacientes. O problema não está só na região Norte do país, pois a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), alerta que a ocupação dos leitos de UTI nos hospitais de todo o país está em seu nível mais alto desde julho do ano passado. O balanço da organização mostra que 21 estados, mais a cidade do Rio de Janeiro, têm hoje níveis médios ou críticos de ocupação.

Gerson Salvador, médico infectologista e especialista em Saúde Pública, afirma que o Brasil vive um “filme repetido” com o descontrole da pandemia. “A queda na adesão ao distanciamento e isolamento, somada à narrativa do controle da pandemia, criou condições desfavoráveis. Então, o que ocorre em Manaus, hoje, pode se repetir em São Paulo e Rio de Janeiro, que já desafiam o sistema de saúde e sua capacidade de atendimento”, alertou à RBA.

Nesta sexta-feira (19), a capital fluminense chegou a ocupação máximas dos leitos de UTI exclusivos para Covid-19 disponíveis, segundo o sistema da prefeitura. Além disso, o Hospital Geral de Roraima também viu os leitos de UTI e leitos semi-intensivos para coronavírus atingirem 100% de ocupação.

A sanitarista Lumena Furtado, mestre em Saúde Pública, diz que a situação de Manaus não é isolada, diante do projeto “necropolítico” do governo Bolsonaro. “Vemos em todos os municípios o crescimento da pandemia, em número de mortes e casos, que tem sido insustentável. Sem uma ação efetiva, veremos novos casos igual ao de Manaus ocorrendo pelo país”, lamenta.

Além do Amazonas e Rio de Janeiro, os estados de Amapá, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal estão em nível crítico, com mais de 80% dos leitos de UTI ocupados. A capital Macapá chegou a 94,6% das unidades intensivas lotadas, hoje.

Ações de controle

De acordo com Gerson Salvador, o Brasil criou a narrativa da epidemia em controle e a da imunidade de rebanho, mas Manaus provou o contrário. O especialista defende algumas frentes de esforços, entre elas, a retomada dos hospitais de campanha e investimentos emergenciais em insumos.

“Após o desmonte dos hospitais de campanha, precisam retomar o aumento de leitos. É preciso também prestar atenção aos suprimentos, pois já ocorreu a falta de sedativos e oxigenação no ano passado”, citou, ao lembrar da falta de respiradores, durante o início da pandemia.

Na avaliação dele, os municípios precisam aumentar as medidas de distanciamento e fechar as atividades que não sejam estritamente necessárias. Porém, ele alerta sobre a aplicação de um lockdown. “Se acontecer, precisa de suporte econômico e material, para não deixar pessoas morrendo de fome. Em Manaus, por exemplo, já passou da hora de adotar o lockdown e, cidades que já estão chegando ao limite, também precisam adotar”, defendeu.

Lumena aponta para outra frente necessária: a articulação do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o território nacional. A especialista em Saúde Pública diz que a desarticulação, provocada pelo governo federal, dificulta o enfrentamento da pandemia.

“O SUS tem capacidade para enfrentar essa situação e sem seu fortalecimento, fica difícil conter a pandemia. Para isso, eu indicaria essas ações fundamentais: garantir, através do Congresso, um financiamento adequado ao SUS para garantir os insumos necessários; o fortalecimento da articulação entre estados e municípios; o SUS assumir a regulação do sistema público e privado, desde leitos e serviços ambulatoriais; compras centralizadas de insumos e o acesso à vacina; e o isolamento mais sério nas cidades”, defendeu.

Genocídio de Bolsonaro

Na última segunda-feira (11), o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, esteve em Manaus e se encontrou com o prefeito da cidade, David Almeida (Avante) e com o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). Pazuello pediu autorização para encorajar o uso de remédios comprados em larga escala pelo governo de Jair Bolsonaro, como a cloroquina e a ivermectina, nas Unidades Básicas de Saúde.

Em documento enviado à secretaria de Saúde de Manaus, o ministério de Pazuello trata como “inadmissível” a não utilização desses remédios, sem eficácia comprovada pelos doentes atingidos pelo novo coronavírus.

Lumena Furtado afirma que para garantir o combate à Covid-19 é urgente um engajamento coletivo pelo impeachment de Jair Bolsonaro. “Ele é um presidente genocida, que não permite frear a pandemia, muito menos o aumento da desigualdade, como estamos vivenciando. A vacinação é uma agenda central, assim como o impeachment de Bolsonaro”, afirmou.

O governo Bolsonaro tem uma agenda clara de boicotar a medicina e a vacinação, critica Gerson Salvador. “Ele divulga tratamentos e medicamentos ineficazes, como cloroquina e ivermectina, num cenário em que os estudos não recomendam. Ele ainda deixa faltar o que é fundamental: a terapia com oxigênio. Então, é uma agenda de morte. O governo Bolsonaro promove um verdadeiro genocídio, que não é omissão, é algo deliberado. É um crime”, finalizou.

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