Com Biden, Bolsonaro estará sob pressão ‘muito forte’, diz professor

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Sob forte aparato militar, após a invasão ao Capitólio há duas semanas, o democrata Joe Biden toma posse nesta quarta-feira (20), em Washington, como novo presidente dos Estados Unidos. Como anunciado desde a campanha, a previsão é que o novo governo norte-americano de Biden exerça pressões sobre o governo Bolsonaro no Brasil, principalmente em relação à preservação do meio ambiente.

Mas essa pressão deve ser “positiva”, de acordo com o cientista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Politicamente, ele prevê um relacionamento “frio e distante” entre Bolsonaro e o novo presidente estadunidense.

“Bolsonaro vai estar sob pressão muito forte. Terá que mudar, para que não fiquem ainda mais prejudicadas as relações comerciais. Nesse sentido, há esperança que o governo Biden faça uma pressão positiva sobre o governo brasileiro, que tem uma política de destruição ambiental”, disse ele, em entrevista ao Jornal Brasil Atual.

“Fora isso, as relações comerciais devem ficar mais ou menos na mesma, sem grandes mudanças. A questão fundamental vai ser no campo político, com um relacionamento frio e distante. Além do campo ambiental”, acrescentou. Fornazieri disse que, apesar de Bolsonaro ter “se ajoelhado”, Trump “nunca deu bola” para ele. “Foi apenas uma relação ideológica malfeita, que prejudicou os interesses do Brasil”.

‘Declínio relativo’

Ele aposta, ainda, que Biden deve adotar um “multilateralismo colaborativo” na relação com os demais países. Biden já anunciou, por exemplo, o retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, para conter os efeitos do aquecimento global. Ainda assim, os atritos com a China devem continuar.

“A China está em ascensão economicamente. E os Estados Unidos estão enfrentando um declínio relativo. Inclusive a China tem a perspectiva de se tornar a potência tecnológica mais importante do mundo. Nesse sentido, as tensões e pressões devem continuar”.

Política interna

De acordo com o cientista político, o impeachment de Trump interessa a setores do próprio Partido Republicano, que querem retomar o comando da legenda. Hoje, segundo ele, o partido está dominando pelo “trumpismo”, que é dividido em duas alas. De um lado, supremacistas brancos, com viés terrorista, como os que invadiram o Congresso. Do outro, um “atroz” conservadorismo religioso.

“O Partido Republicano mantinha uma política liberal conservadora. Eram de direita, mas não de extrema-direita, como agora, sob a égide de Trump. Quanto a ele, acredito que vai entrar em declínio. Sai muito desgastado, acusado de ter incitado uma insurreição que provocou mortes. Nesse sentido, acredito que não só pode ser responsabilizado politicamente, mas também criminalmente”, afirmou.

Paralelos com o Brasil

Sobre o Brasil, Fornazieri criticou a “covardia” do Congresso Nacional, que deveria analisar os mais de 60 pedidos de afastamento contra Bolsonaro. Além do impeachment, ele também defende a criação de uma “CPI da Saúde” para investigar os “desmandos e crimes” cometidos durante a pandemia, como as mortes por falta de oxigênio em Manaus, e os gastos milionários do Exército com a produção de cloroquina.

Sobre as relações do Brasil com a China, que agora resiste em exportar insumos para a produção de vacinas contra a covid-19, Fornazieri diz que o povo brasileiro está “pagando o preço” das “agressões belicosas” do governo Bolsonaro. Ele classificou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, como “desastroso”, guiado por “loucuras ideológicas”. Destacou que as relações com Índia também não vão bem, apesar de serem mais próximos ideologicamente.

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