Livro sobre Celso Furtado faz debate econômico além do dia-a-dia repetitivo

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É o que oferece o livro “Celso Furtado e os 60 Anos de Formação Econômica do Brasil”

por Luiz Roberto Serrano

O dia a dia do noticiário econômico no Brasil passa pela Faria Lima, onde estão os farialimers, sempre apresentados como os sábios que sabem tudo sobre as causas e os futuros efeitos da medidas x, y, z adotadas pelo governo federal e outras fontes de poder. Nomeiam-se ali recuos, ganhadores e perdedores (geralmente a população) em função do conteúdo da decisão, o acerto ou erro de adotá-la e, quando muito, a disputa política em torno da sua adoção.

Concordemos, é muito pouco diante dos enormes desafios que se colocam diante do País e da economia brasileira, que andam de lado, sempre em torno das mesmas questões – mais Estado, menos Estado, privatizações incensadas como a solução de todos os nossos problemas (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios etc…), emprego, distribuição de renda e, desculpem o incômodo, fome… apesar de sermos o 8° ou 9° PIB do mundo, disputando pau a pau com quem? A Rússia, hoje na berlinda mundial.

Por isso, nos anima quando caem em nossas mãos debates estruturais sobre como a evolução (ou involução) da economia brasileira nos trouxe até os dias de hoje. Sim, a crise com que nos deparamos diariamente não surgiu do nada, construiu-se dia a dia, com avanços e recuos (às vezes, mais recuos), decisões erradas e falta de coragem ou comodismo para enfrentar os desafios de frente, desbravar caminhos novos, ousar inovar – mas inovar mesmo.

O livro recém-lançado pelas Edições Sesc – Foto: Reprodução/Sesc

É o caso do recém-lançado livro Celso Furtado e os 60 Anos de Formação Econômica do Brasil.  É o resultado de um seminário organizado pelos economistas Alexandre Macchione Saes e Alexandre de Freitas (USP, Unicamp e Unesp), centrado na principal obra do autor, lançada em 1959 e que “se transformou rapidamente em clássico da literatura econômica e social do País”, na interpretação dos dois.

Dizem os organizadores do livro na sua apresentação: “Ao associar  formulação teórica original e uma sintética interpretação ancorada no método histórico-estrutural, Celso Furtado debruçou-se sobre os desafios enfrentados pela sociedade brasileira nos anos 1950. O conhecimento da dinâmica do subdesenvolvimento era pré-condição para um projeto articulado e coerente de desenvolvimento. Se este projeto não aparece com todos os seus contornos em Formação Econômica do Brasil, os leitores das suas primeiras edições – estudantes, servidores púbicos e representantes de entidades sociais – saíam da leitura com a convicção de que, pela primeira vez na história, o projeto de desenvolvimento nacional tornava-se uma possibilidade concreta. Inclusive pelo fato de o autor ter destrinchado na obra as tensões e dilemas estruturais que se interpunham no meio do caminho”.+ Mais

O ano de 1959 faz parte do período “mágico” de JK, presidente do Brasil, que se segue ao segundo governo de Getúlio Vargas, e que correu sob a promessa de um desenvolvimento de “50 anos em 5”. O “mágico” aqui vai por conta do saudosismo com que a época é lembrada, principalmente pelos que a viveram de perto. Construção de Brasília, instalação da indústria automobilística, rodoviarismo, cinema novo, bossa nova, UNE em ascensão, conquista do campeonato mundial de futebol com Pelé e Garrincha e várias outras boas lembranças são desse período.  Por isso, o “mágico”.

Nesse período, Furtado foi diretor da Divisão de Desenvolvimento da Cepal – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, passou pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – BNDE (sem o S), elabora o Plano de Desenvolvimento do Nordeste, que resulta na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, que veio a presidir, é nomeado ministro do Planejamento, no governo João Goulart, e elabora o Plano Trienal de Desenvolvimento, com a difícil meta de combater a inflação e manter o desenvolvimento. Muita coisa, não? Mas, aí veio o golpe de 1964 e tudo isso virou terra arrasada. Furtado exilou-se e continuou a produzir nos espaços internacionais – universidades e instituições – que conquistara ao longo de sua carreira, voltando ao Brasil, depois da abertura, sendo, ainda ministro da Cultura no governo Sarney.+ Mais

O seminário estampado no livro, resultado de uma parceria entre o Sesc e a Biblioteca Brasiliana, com prefácio de Rosa Freire D’Aguiar, abarca ricas discussões sobre o significado e a atualidade de Formação Econômica do Brasil.

Não, não se trata de uma discussão sobre o passado, que não volta mais. É um debate sobre como chegamos até aqui, por que, onde erramos, claro, onde acertamos, mas principalmente sobre as oportunidades perdidas para se construir um País desenvolvido e soberano. Uma discussão que está na ordem do dia, mas ainda não se espalhou pelo País. Ao invés de discutir-se questões de fundo, discute-se sobre o dia a dia, que se repete, repete, repete…

Do Jornal da USP

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