“Pequenos movimentos sociais são germes de um horizonte do porvir”

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Para Breno Bringel, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, o Brasil chegou ao fim do ciclo da redemocratização e os movimentos locais são o futuro da disputa por direitos sociais.

De acordo com o professor de Filosofia da Unicamp, Marcos Nobre, o ano de 2008 é um marco na história mundial. A crise do subprime, que se instaurou primeiro nos EUA e depois atingiu todo o mundo, iniciou uma onda de protestos que persiste até hoje. Nesse sentido, Nobre considera 2008 como o ano 1 da crise do neoliberalismo.

Contudo, mesmo sob protestos, o que se viu no mundo nesses doze anos foi o avanço do neoliberalismo sob diversas formas de governo. O capitalismo está cada vez mais autoritário e alguns países estão sob um autoritarismo furtivo. No mesmo sentido, essa onda está vinculada às novas dinâmicas da financeirização e também à repressão e criminalização mais fortes. No Brasil, não é diferente. Porém, curiosamente, os protestos chegaram antes das medidas de austeridade econômica.

Nesse sentido, o professor Breno Bringel utiliza 2013 como um marco da ascensão dos protestos de grupos subalternizados. Ou seja, grupos que por seu gênero, raça, sexualidade e outras características, se articularam para ir às ruas contra pautas específicas, mas também para disputar um novo mundo possível.

Indígenas, negros e mulheres sempre foram resistência

Para Bringel, “o ciclo da redemocratização terminou para o bem e para o mal”. Com isso, ele projeta que os líderes do período – a década de 1980 – vêm perdendo a liderança nos protestos desde 2013. Ainda assim, ele acredita que são articuladores nos movimentos sociais, porém, sem o liderarem. Aliás, Breno Bringel acredita que as características que marcam as manifestações desde 2013 no Brasil são a heterogeneidade e as pautas dos subalternizados, e não lideranças.

A subalternidade é uma posição e um processo, de acordo com o professor. No Brasil, ela se manifestou com o genocídio dos povos originários, expropriações de terra em favor dos ricos, a questão escravocrata que deu origem ao racismo estrutural e o machismo que sempre relegou às mulheres uma posição fora do poder. E essas posições seguem estruturando a realidade até hoje.

Por isso, essas manifestações retomam à resistência dos primeiros que resistiram à ordem no Brasil. Essa retomada da resistência ancestral se dá porque ainda hoje esses grupos são vitimados pela estrutura racista, machista e etnocida. Sobretudo agora, durante o governo Bolsonaro.

Dessa maneira, a resistência expressa nos protestos de agora remonta às resistências plurais, às matrizes políticas e econômicas que formaram o Brasil.

Movimentos em defesa da democracia

Dessa forma, o professor argumenta que é preciso que os que lutam pela democracia não se tornem reféns da conjuntura imediata. O que não exclui, é claro, o enfrentamento às retiradas de direitos, às ações que matam e às mudanças que pioram a vida da maioria das pessoas.

Porém, é preciso mais. O professor propõe que se avance no resgate das lutas do médio e de longo prazos e que se dispute a narrativa que hoje sustenta os protestos.

Com a chegada da pandemia, que escancara as desigualdades sociais, é preciso combater os retrocessos, mas também resgatar a história para assim, conseguir propor um horizonte que atenda à maior parte da população.

“Existe uma criatividade pulsante de iniciativas locais, em comunidades urbanas e rurais de economia solidária”, diz Bringel. E ele acredita que as maiores mudanças serão articuladas por esses grupos, de base local, com focos diversos que buscam soluções locais para problemas locais, mas que podem ser replicadas, se não em escala, em quantidade.

“Existem pautas e agendas concretas desenvolvidas por esses movimentos”, segundo ele, que propõe que parte da solução é o fomento para que essas iniciativas tenham um eco mais amplo.

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