Pochmann: O violento consenso das commodities

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Modelo agrário-exportador promete riqueza nova, mas expande-se através de fome, precarização e desmatamento. Em nome das cadeias globais de valor, dizimam-se povos como os yanomamis e mantém-se lógica hostil à natureza e ao trabalho

 

genocídio de yanomamis recentemente revelado ao grande público se encontra associado ao consenso das commodities que tomou conta das elites dirigentes no Brasil concomitante com o colapso da sociedade industrial. O consenso das commodities caracteriza o período econômico, social e político aberto desde o ingresso subordinado na globalização que rebaixou a condição periférica do Brasil na Divisão Internacional do Trabalho.

Para que fosse possível a formação de maioria política interna, o realinhamento passivo junto ao movimento do deslocamento do centro dinâmico do Ocidente para o Oriente se mostrou fundamental (M. Svampa, Consenso de los commodities y megaminería, 2012; G. Arrighi, Adam Smith em Pequim, 2008). Com isso, o esvaziamento da industrialização nacional deu lugar ao inchamento do setor terciário simultaneamente ao fortalecimento do modelo primário-exportador que se tornou o elo principal da conexão periférica com o novo centro dinâmico global.

Pelo consenso das commodities, o andar de cima da sociedade se preservou diante do sentido geral da decadência nacional a dominar a maior parte dos brasileiros. Enquanto o rentismo valoriza o estoque da riqueza velha pela financeirização, o modelo primário-exportador potencializa a geração de riqueza nova associada ao rebaixamento do custo do trabalho e ao extrativismo sem limites do abuso dos recursos naturais minerais e vegetais.

Assim, a integração do Brasil nas cadeias globais de valor se especializou em mercadorias de diminuto valor agregado, o que favoreceu as corporações transnacionais que contaram, inclusive, com medidas governamentais redutoras dos direitos laborais, conforme confirmam as reformas trabalhista de Temer e previdenciária de Bolsonaro. Para a classe trabalhadora, a desvalorização e sofrimento resultaram da perda do horizonte do emprego assalariado formal mediante à prevalência das ocupações gerais, incapazes de gerar identidade e pertencimento coletivo, bem como a perspectiva de mobilidade social ascendente.

No âmbito espacial, uma espécie de retomada da fragmentação gerada por economias de enclaves se estabeleceu entre o interior com algum dinamismo econômico gerado por sua conexão e dependência do exterior e as áreas litorâneas submetidas ao desmonte das cadeias produtivas endógenas. Por conta disso, houve a remontagem de novas forças sociais que dominaram o cenário da política local, regional e nacional, consolidando nas próprias elites dirigentes a lógica da transferência de componentes da natureza e da produção e extração de matérias-primas ao exterior.

Visto como uma via rápida para o crescimento econômico, o consenso das commodities se fortaleceu pelos resultados concretos obtidos na lucratividade financeira gerada nos negócios com o comércio externo, sejam exportadores, sejam importadores. De todo o modo, a economia nacional está cada vez mais transformada em reflexiva do exterior, submetida à volatilidade da demanda, preços e nível das ocupações.

Em boa parte do tempo, a trajetória ascendente dos preços formados nos mercados internacionais de matérias-primas e bens de consumo consagrou o processo de reprimarização econômica. Mediante aprofundamento do processo de trocas externas desiguais, a soberania alimentar acentuou-se concomitante com a dependência da importação de bens e serviços de maior valor agregado e conteúdo tecnológico.

Isso porque o complexo extrativista se ampliou, contemplando um conjunto de atividades que atende da mineração e combustível fóssil ao conjunto do agronegócio. A grande escala dos empreendimentos envolvidos redefiniu a dimensão dos investimentos à forma com que o país se encontra posicionado nas cadeias globais de valor.

Em síntese, o consenso das commodities reconstituiu internamente tanto a ordem econômica como o sistema político de dominação. A gravidade disso para a sociedade brasileira, especialmente para o andar de baixo, assenta-se na desestruturação do mundo do trabalho, na insegurança alimentar e na enorme parcela da população sobrante aos requisitos da raquítica acumulação de capital.

Como não poderia deixar de ser, a inflexão primário-exportadora tem sido acompanhada pela expansão de conflitos, especialmente socioambientais. As lutas pela terra mobilizam populações originárias e segmentos da agropecuária familiar, assim como nas cidades as ações contrárias à superexploração do trabalho.

Em reação, os ataques à democracia se sucedem, sobretudo quando governos progressistas buscam implementar medidas de interesses populares. No campo político, o movimento de continuidade e descontinuidade avançou sem que a ruptura plena com o neoliberalismo tenha ainda sido possível ocorrer.

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