Fugindo da cidade para escapar à fome

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Expostos à carestia e à violência, trabalhadores deixam periferias urbanas para produzir seu alimento como agricultores. Leia o depoimento da piauiense que, sem romantizar esta via, encontrou nela a dignidade para sua família

Com o avanço da fome, já são quase 20 milhões de brasileiras e brasileiros que não têm alimento para colocar na mesa. A fome não é um problema só dos rincões do país, mas também das periferias urbanas. No sertão do Piauí, para driblar a falta de comida, famílias estão saindo das zonas urbanas mais pobres e voltando a morar no campo – onde conseguem produzir o próprio alimento. Sônia Maria da Costa Sousa viveu 30 anos na periferia de Picos, terceira maior cidade do Piauí, e, na pobreza, viu a fome e a violência de perto. Voltou à roça e se juntou ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). No quintal de casa, produz macaxeira, feijão e hortaliças. Mas não se esqueceu de quem passa fome na cidade: desde abril de 2020, ela e outros integrantes do MPA doaram mais de 100 toneladas de alimento para famílias em situação de vulnerabilidade na cidade. As cestas básicas não incluem enlatados ou itens de supermercado, só produtos da terra: macaxeira, farinha, goma, feijão, hortaliças ou carnes de animais criados nos quintais e roças dos agricultores. “As pessoas saem daqui da roça na busca de um emprego para melhorar de vida, não para sofrer nas periferias da vida. Se antes as pessoas saíam do campo para ter uma vida melhor, agora elas estão voltando pro campo para poder comer”, conta em depoimento à Piauí.

Quando eu saí da zona rural com meu marido e duas filhas pequenas para morar na periferia de Picos, não imaginei que passaria por tantos apertos. Fome mesmo, nunca passei, mas entre pagar aluguel, colégio de criança e contas de casa, tinha dias que minha família só enxergava arroz, feijão e alguns pedaços de carne nas panelas. O arroz e o feijão, às vezes, eram mais difíceis que a carne. Meu marido era magarefe em um abatedouro de bois, então ele trazia o que dava. Não era muito, mas dava para misturar com farinha ou qualquer coisa que desse pra forrar a barriga. Domingo, às vezes, era só salada. Eu fazia malabarismo no prato.

Na periferia urbana passei coisas que nunca vou passar na roça. Quem mora no subúrbio são pessoas pobres, a maioria negras, e que não têm condição de viver. Elas apenas sobrevivem. O bairro onde morei por quase 30 anos, chamado Parque de Exposição, era tão violento que, quando eu precisava viajar de ônibus e voltar de madrugada para casa, não tinha um táxi ou mototáxi que quisesse me deixar em casa. Ou meu marido vinha me buscar, ou eu dormia por lá esperando amanhecer.

Não é fácil viver no campo – é preciso trabalhar duro, pegar na enxada e suar a testa. A diferença é que você tem como plantar e ver a comida no quintal de casa. Demorei para voltar à terra por conta das minhas filhas. Na década de 1990, as escolas públicas faziam muita greve e eu não queria ver minhas filhas atrasando o estudo. Comi um dobrado para poder pagar a escola particular das meninas, limpando e fazendo faxina em casa de família, mas queria uma educação possível para elas. A mais velha, quando fez 18 anos, foi estudar medicina em Cuba. Ela voltou doutora. Não é todo dia que um filho de pobre e da roça consegue virar médico, mas a minha conseguiu.

Eu voltei à roça aos poucos. Comprei um terreno na zona rural da cidade de Francisco Santos, a quase 1 hora de distância de Picos, em 2012. Na mesma época, o Minha Casa, Minha Vida chegava ao interior. A casa que eu tenho hoje é graças ao programa. Meu quintal era grande, bem diferente do que eu tinha na cidade, onde não cabia quase nada. Nesse lugar eu comecei minhas primeiras produções. Comecei plantando ervas e verduras – como minha mãe havia ensinado quando eu ainda era criança. Na comunidade, toda mulher tinha seu quintal. Só não tinha quintal quem morava na terra de um fazendeiro que não permitia plantar. Eu e mais 92 mulheres ingressamos no projeto Quintal Produtivo, da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) do Piauí, para receber incentivos e poder plantar hortaliças e criar galinhas canela-preta. A gente foi fazendo roça no fundo de casa e não parou mais. Hoje eu tenho no meu quintal galinhas, feijão, macaxeira, frutas e verduras. Meu quintal é uma floresta de tão verde.

A preocupação de quem mora no sertão é a água. Sem chuva, no inverno, fica difícil ter uma produção para consumo próprio. O poço comunitário serve para beber água, fazer comida, limpar a casa, mas não para manter as roças. A gente tinha que pensar em uma metodologia para poder plantar quando a chuva fosse embora, então descobrimos um sistema de tecnologia de reuso da água que usamos no dia a dia para irrigar as plantações. Mas quem faz militância na roça não pensa só em si. Mesmo no campo, eu tinha levado comigo a preocupação de quem ainda estava na cidade e não tinha o que colocar na mesa. No Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), era normal a gente dividir nossos problemas – que às vezes não eram nossos, mas coletivos.

Desde antes da pandemia a gente via a situação de quem morava na cidade ficando mais difícil. Foram chegando cada vez mais e mais notícias de quem tava passando fome na cidade, sem emprego e renda. Quando o coronavírus surgiu, tudo piorou de vez, e os agricultores não queriam deixar de ajudar. No MPA, a gente tinha famílias espalhadas em mais de quarenta comunidades sertanejas distribuídas em treze municípios ao redor de Picos. A gente foi juntando de pouquinho, um dava uma coisa daqui, outro dava algo dali, até que a gente tinha muita comida para doar. De abril de 2020 até a última doação, no dia 1° de maio, Dia do Trabalhador, conseguimos levantar mais de 100 toneladas de alimentos para quem passa fome na cidade.

Depois que reunimos toda a comida, ensacamos em cestas, procuramos as paróquias, ONGs e Centros de Referência da Assistência Social (Cras) das periferias da cidade. Eles mapeiam e localizam famílias em situação de vulnerabilidade, repassando os alimentos. Achamos assim mais seguro, porque eles conhecem a realidade das famílias, e sabemos que o material vai para quem realmente precisa. Tem gente de todo tipo no mundo, até gente que pega a comida para vender e manter vícios. Não dá para fazer ação todo mês, mas a gente se esforça ao máximo. Comida é coisa séria. No ano passado, eu consegui doar mais de meia tonelada de macaxeira, e esse ano eu produzi quatrocentos pães. Tudo plantado ou feito aqui em casa.

Tem gente que doa mais, gente que doa menos. O importante é construir. Se não quiser doar, não doa também. Ninguém é obrigado, e entendo que tem gente que não pode doar. A intenção não é tirar da sua boca e dar para o outro sem pensar no amanhã, não é? A gente só faz o que pode e só doamos o que temos: macaxeira, farinha, goma, feijão e hortaliças, carnes. Não tem nada de supermercado, nem enlatado ou coisas que não tem na terra. Até o nosso doce, de caju ou de mamão, é feito aqui. E acredite, é bem melhor do que essas frutas cheias de agrotóxico de mercadinho.

Eu não quero nunca romantizar o trabalho do campo, porque ele não é fácil. Pense em uma coisa difícil: é montar uma roça e ela não vingar. Não imagine o desespero de um agricultor que perde tudo, ou não produziu nada, depois que o inverno vai embora do sertão. Mas me dói bastante ver uma família saindo daqui hoje e indo tentar a vida na cidade. Se o pai e mãe de família vai para a cidade, não consegue um emprego e renda, ele fica à mercê da miséria. As pessoas saem daqui em busca de um emprego para melhorar de vida, não para sofrer nas periferias da vida. Se antes as pessoas saíam do campo para ter uma vida melhor, agora elas estão voltando pro campo para poder comer. Eu vi a fome espreitando à porta da minha casa no subúrbio na cidade e não quero nunca mais voltar para ver. A fome faz vítimas nesse país.

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