Coronavírus: capital versus saúde

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A situação na Itália continua dramática. Segundo dados oficiais, há mais de 50 mil pessoas positivas para coronavírus, mas poderia ser dez vezes mais. Mais de 3 mil estão internados em unidades de terapia intensiva e mais de 6 mil morreram. O quadro mais grave está no norte do país (reunindo mais de 80 por cento dos casos), especialmente na região da Lombardia, com mais de 58% do total nacional.

As estruturas sanitárias estão à beira do colapso e o país enfrenta a necessidade urgente de retardar o avanço e a disseminação do vírus, colocando o direito fundamental à saúde à frente das «necessidades» do capital.

Segundo Andrea Cegna, editor da Rádio Onda d’Urto e colaborador de várias mídias escritas, um dos principais problemas é que, em pouco mais de duas décadas, a Itália reduziu pela metade o número de leitos, incluindo os de cuidados intensivos, passando de 575 para 275 a cada 100 mil habitantes.

Desmantelamento do Estado social

Em nota publicada no jornal Il Manifesto, Nicoletta Dentico observa que entre 2010 e 2016, 175 hospitais foram fechados, e reduzidas, de 624 para 101, as estruturas descentralizadas do Serviço Nacional de Saúde para a distribuição de serviços.

Tudo isso em benefício da saúde privada e do setor de seguros de saúde. Em 2017, o desembolso privado de saúde aumentou 9,6 por cento, o que obrigou quase 7 milhões de pessoas a se endividarem”, diz a nota.

Esses elementos limitaram severamente a capacidade de resposta imediata, ampla e contundente do sistema de saúde diante da explosão de contágio por coronavírus.

Apesar dos esforços do mês passado para aumentar a disponibilidade de leitos de terapia intensiva e para adquirir respiradores, os hospitais não conseguem dar vazão, e terminam colapsando.

“A emergência e a crise são amplificadas por decisões políticas que enfraqueceram o Estado social, não só em termos de atenção à saúde, mas também no mundo do trabalho”, diz Cegna.

«Inicialmente, as medidas do governo foram muito brandas e milhões de trabalhadores e trabalhadoras se viram na encruzilhada entre escolher cuidar de sua saúde e continuar trabalhando para garantir seus salários. Uma verdadeira chantagem que decorre da progressiva perda de direitos trabalhistas.»

Saúde ou economia?

Atualmente, a única medida possível para impedir a expansão do vírus é reduzir o contato entre as pessoas.

“O coronavírus é ‘totalmente democrático’ porque ataca todas as pessoas igualmente, não importa seu status social, sexo ou idade. O problema – continua Cegna – é que nem todas as pessoas vivem a emergência da mesma forma.»

“A estruturação assimétrica da sociedade capitalista mostra toda a sua violência protegendo uns poucos e excluindo a grande maioria que conta com apenas escassas opções e garantias. Quando perguntados sobre o que é mais importante, a saúde individual e coletiva ou a economia, não podemos vacilar.»

Precariedade e abandono

Ainda mais difícil é a situação de todos aqueles que são autônomos (com registro de IVA), que têm empregos informais e precários, contratos safrais ou que estão completamente desprotegidos.

“São pessoas que, se não trabalham, não ganham nada, nem têm direito a certa segurança social. Hoje não se vive o conflito capital-trabalho, mas sim capital-saúde, onde a defesa da saúde como elemento coletivo se opõe às necessidades do capital”, explica o redator da Rádio Onda d’Urto.

Na Itália, vimos isso recentemente, quando a necessidade de limitar os contatos humanos ao máximo entrou em conflito com as exigências das empresas privadas de manter abertas as atividades produtivas não essenciais, nem estratégicas.

Segundo dados da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL, na sigla em italiano), cerca de 12 milhões de pessoas continuam trabalhando, pese a esta grave situação.

Houve uma mudança de rumo por parte do governo, mas não é suficiente. Por um lado, é preciso garantir a máxima segurança para os trabalhadores e as trabalhadoras e, por outro, proteger todas aquelas pessoas que não ganham salário se não trabalham”, diz Cegna.

Diante desta situação, tanto a União Sindical de Base (USB) quanto as três confederações sindicais CGILCISL e UIL anunciaram uma paralisação para o dia 25 de março.

Enquanto isso, em várias partes do país há a paralisação espontânea de trabalhadores e trabalhadoras que exigem o fechamento de todas as atividades não essenciais e mais medidas de segurança para as pessoas que continuam trabalhando.

Depois do que estamos vivendo, não podemos pensar que o mundo será o mesmo novamente. Deve haver um novo começo onde o direito à saúde e aos direitos fundamentais se posicionem como elementos primários em face da economia«, concluiu Cegna.

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