Dignidade humana: uma herança necessária para o pós-coronavírus

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Dignidade humana: uma herança necessária para o pós-coronavírus

A pandemia do coronavírus. Foto: AFP

A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS. FOTO: AFP

A pandemia acelerou uma crise anunciada: a sociedade mercadológica nunca deu conta das necessidades humanas mais essenciais

A covid-19 apresentou a todos os que habitam este pequeno planeta azul uma importante convocação: do dia para noite, a vida passou a ser “o foco” de atenção da espécie humana. Negros, brancos, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais, transgêneros, cristãos, judeus, muçulmanos, abonados e desfavorecidos. Todos atentos aos noticiários, às redes sociais, de olho nas estatísticas epidemiológicas do novo coronavírus.

O medo da morte, seja pela contaminação ou seja pela fome, parece ter deixado para segundo ou terceiro plano as diferenças decorrentes das diversidades… Será? Onde estão as tenebrosas notícias sobre feminicídio? O homicídio monstruoso de transgêneros? Não lhes roubam mais a vida? Onde estão os que lhes condenam à morte? Em isolamento social ou atuam ainda mais livremente sob o lusco-fusco desses dias que amanhecem para o pesadelo?

Provavelmente só saberemos ao certo mais à frente, mas enquanto isso talvez valha a pena aproveitarmos o tempo presente, esse tempo com o qual não contávamos, para nos provocarmos e exercitarmos a bem-aventurada faculdade humana de refletir sobre as grandes e profundas mudanças que as contingências atuais impõem.

Em um piscar de olhos, tivemos que mudar a forma como nos relacionamos com o tempo e o espaço, dimensões nas quais nos inscrevemos existencialmente. Muitas urgências de prazo desapareceram como por encanto; a casa onde habitamos, por mais simples que seja, transformou-se no lugar ideal, porque não há pedaço de chão no mundo que controlemos melhor. E assim instalou-se, na mais própria de nossas realidades, a maior de todas as novidades: a necessidade de aprender a viver uma vida completamente diferente.

Sim, porque o futuro ainda é incerto! Quando findará esse tempo de isolamento social? Alguém sabe? A despeito da disponibilidade de leitos de UTI das últimas semanas, os óbitos no Brasil – e em vários países do mundo – têm subido obstinadamente compondo gráficos eloquentes. Os caminhões frigoríficos que começam a aparecer na cena hospitalar brasileira são contundentes!

COM A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS, DO DIA PARA NOITE, A VIDA PASSOU A SER “O FOCO” DE ATENÇÃO DA ESPÉCIE HUMANA (FOTO: GUILHERME GANDOLFI/FOTOSPÚBLICAS)

Até que surja uma vacina ou tratamento efetivo, teremos que buscar, com o melhor de nossos esforços, não nos contaminarmos para, inclusive, não contaminarmos o próximo. É exatamente nessa perspectiva sanitária e moral que se instaura a necessidade de aprendermos uma nova maneira de nos relacionarmos com o “outro”, em todos os sentidos.

Nesse terreno certamente desconhecido para todos, há caminhos já percorridos pela população LGBT. Para começar, é provável que a palavra “diferente” assuste menos. Desde a mais tenra idade, muitos tiveram que aprender a lidar com o fato de não serem iguais à maioria.

É possível que transgêneros intimados pela vida a transcender o próprio corpo, na expressão do amor, possam agora nos ensinar a mantermo-nos afetivamente conectados, apesar da ausência física; LGBTs que são HIV positivo talvez possam nos ensinar como é suportar a dor de ser visto como um vetor de contaminação. É bastante razoável supor que pessoas que, pela falta de configurações familiares modelares, e que tiveram que enfrentar o medo da solidão, tenham agora maior sensibilidade e conhecimento para ajudar aqueles que, apesar de terem família, encontram-se absolutamente sozinhos.

É que foram e são muitos os casamentos engendrados pelas conveniências, pavimentados pelos reforçadores sociais. Deram origem a verdadeiras prisões domiciliares: as pessoas sofrem porque não tiveram tempo e nem oportunidade de aprender sobre si mesmas, de identificar suas reais necessidades; pouco sabem de si e quase nada do outro. Acreditaram nas promessas de felicidade da sociedade de consumo, operam segundo essa lógica e esperam de suas relações conforto, prazer e status.

 A pandemia atual acelerou, a meu ver, uma crise já anunciada por Zygmunt Bauman. Os modelos de relação “propostos” pelas sociedades mercadológicas nunca deram conta das necessidades humanas mais essenciais. Antes resultaram numa busca frenética por sucedâneos e valores cujos objetivos são sedar a dor fantasma de uma autoestima culturalmente amputada.

Nestes dias em que carros caros e baratos encontram-se igualmente parados nas garagens, roupas finas vestem os armários, hotéis luxuosos estão vazios e restaurantes requintados fechados, ricos e pobres acompanham atentos aos noticiários igualmente temerosos de adoecerem e não terem um leito de UTI para se recuperarem. O medo do futuro parece ter se tornado mais democrático e, como num passe de mágica, uniu a todos na mesma expectativa. Momento raro!

Posto que, segundo Bonder, a tradição tem compromisso com o passado e suas prescrições, aqueles que, vendo-se forçados, rompem com os modelos para continuar vivendo, fazem, sem saber, um pacto com o futuro e suas promessas: o porvir e a evolução.

Essa será a geração que herdará a terra pós-coronavírus: um povo que independentemente de qualquer coisa saberá reconhecer a dignidade da vida humana, de todos e de cada um; que saberá estabelecer uma escala de valores mais humana, mais ética, mais respeitosa; que saberá se relacionar melhor com a natureza; que não apenas saberá aceitar a diversidade, mas se dará conta da sua necessidade e se disporá a aprender com ela. Oxalá estejamos entre eles!

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