Recuperação da indústria encobre ‘reprimarização’ da economia, alerta diretor do Dieese

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Dados do IBGE divulgados na semana passada indicam que a produção industrial no Brasil cresceu 1,4% de abril para maio. O número positivo interrompeu um período de três quedas consecutivas. Na comparação com maio do ano passado, o crescimento foi de 24%, o segundo maior da série histórica. Com isso, a atividade tem alta de 13,1% no ano e de 4,9% em 12 meses. Contudo, trata-se de efeito estatístico em função da comparação com bases deprimidas registradas no ano passado.

De acordo com o diretor técnico do Dieese, Fausto Augusto Junior, o avanço registrado é importante, mas insuficiente para repor as perdas registradas no último período. Além disso, o setor industrial vem perdendo participação no PIB há mais de uma década. Diante desse quadro, ele aponta para a necessidade do desenvolvimento de políticas industriais no pós-pandemia. Em vez disso, o governo aposta na liberalização desenfreada, acabando com os últimos mecanismos de proteção ao setor.

“O debate sobre a indústria é fundamental para pensar o Brasil do século 21. O que a gente está vendo, na verdade, é um retroagir para o século 19. É um dado bastante preocupante”, afirmou Fausto a Glauco Faria, em entrevista no Jornal Brasil Atual, nesta segunda-feira (5). “Os apoios à indústria foram desmontados. O próprio ministério da Indústria desapareceu. O BNDES deixou de ser um elemento fundamental” acrescentou. Segundo ele, o setor industrial foi deixado “ao Deus-dará”.

Consequências
Além da perda de participação relativa no PIB, o setor industrial vem empregando cada vez menos. Esse fator é preocupante, segundo Fausto, porque, historicamente, o setor é responsável pela maior parte dos empregos formais com melhores salários. Ele aponta para uma nova reconcentração da indústria nos estados do Sul e Sudeste, o que agrava as desigualdades regionais. Por outro lado, o setor ainda vem sofrendo com o aumento dos combustíveis, situação que deve piorar ainda mais com o aumento da energia elétrica, culminando com o risco de apagão.

Com todos estes problemas, o próprio mercado consumidor acaba ficando mais reduzido. Exemplo disso é a opção da maior parte das montadoras de automóveis de abandonar o segmento de carros populares. “As empresas passam a focar nos mercados de luxo, com bens mais caros. Isso tem a ver com o momento que estamos vivendo, de concentração de renda. Um Brasil cada vez mais desigual, onde a diferença de poder de compra vai definindo nossa estrutura econômica geral.”

Fonte: Rede Brasil Atual

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