Revisão do Guia Alimentar nega evidências científicas e coloca em risco a saúde da população

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Especialista afirma que nota técnica do Ministério da Agricultura faz parte de lobby da indústria de processados

Ministério quer que bolachas, refrigerantes, salgadinhos e macarrão instantâneo passem a fazer parte do rol de alimentos indicados pelo Guia

São Paulo – Foi divulgada, na última quinta-feira (17), uma nota técnica do Ministério da Agricultura pedindo a revisão do reconhecido Guia Alimentar para a População Brasileira. Para a professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, Patricia Jaime, a tentativa de alteração nega evidências científicas em relação ao consumo de ultraprocessados e também os impactos ambientais que o consumo excessivo de carnes acarreta.

De acordo com o ministério, a revisão precisa “ouvir” a indústria de alimentos. A nota também pede o fim da classificação que se refere à redução de alimentos ultraprocessados, descritos no Guia Alimentar. A nota foi enviada ao Ministério da Saúde, responsável pelo projeto.

A especialista se diz surpreendida com a interferência do Ministério da Agricultura sobre um assunto sanitário. “O Guia Alimentar é uma diretriz oficial do governo brasileiro, emitido pelo Ministério da Saúde, para orientar uma alimentação saudável. Quando o Ministério da Agricultura pede uma revisão, com argumentos falaciosos e que negam a ciência parece uma ingerência induzida por conflitos comerciais”, afirmou, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual.

Guia Alimentar

Lançado em 2006, o guia é uma publicação do Ministério da Saúde que traz princípios de uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira. Além disso, serve para nortear políticas públicas intersetoriais de segurança alimentar.

Ainda na última quinta, organizações reunidas na Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável lançaram um manifesto contra a inclusão de ultraprocessados no Guia Alimentar, em resposta à posição da ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Patricia Jaime explica que a publicação é reconhecida internacionalmente também por ter classificado os alimentos de uma nova forma. Se antes os guias falavam sobre nutrientes, usando termos mais técnicos, agora, levam em consideração o grau de processamento dos produtos.

A professora desmente também que o Guia Alimentar seja uma imposição do governo federal. “As pessoas dizem que o Estado quer impor à população o que devem comer, isso não é verdade, inclusive nós temos políticas governamentais que favorecem o consumo de ultraprocessados, como os subsídios para a produção de refrigerantes no país. A indústria de alimentos sempre quis barrar o guia, mas o Ministério da Saúde, anteriormente, tinha um compromisso com a saúde pública e desenvolveu um processo democrático. Por isso, é falacioso dizer que não houve consulta à indústria, quando fizemos várias consultas públicas abertas”, finalizou.

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