Sebastião Neto e as lembranças do Brasil operário

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Líder da Oposição Metalúrgica de SP nos anos 70 relembra a vida nas fábricas e a cultura que ela engendrou. Em meio à regressão produtiva atual, lições sobre a organização popular que derrotou a ditadura e talvez possa ressurgir nas periferias

Sebastião Neto trabalhou por mais de 20 anos como metalúrgico nas fábricas da Volks e da Ford, no ABC paulista. As jornadas de trabalho eram extenuantes: 7h às 21h de segunda a sexta; das 7h às 18h nos sábados; e das 7h às 16h no domingo. Havia peões cochilando por toda a parte – e inúmeros acidentes no trabalho. Eram outros tempos, relembra ele, ao menos um operário poderia, mesmo quase se matando de tanto trabalhar, sonhar com um carrinho ou comprar um terreno para ir construindo sua casa aos poucos. Hoje, o fantasma do desemprego é usado para precarizar, cada vez mais, a classe trabalhadora – que, muitas vezes, não ganha sequer para se alimentar adequadamente.

No entanto, Neto, ex-dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e um dos líderes da Oposição Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP), analisa que a organização sindical dos anos 70, que promoveu as Greves do ABC, que abalaram a ditadura militar, produziu uma rica cultura operária no país. Lênin e Rosa Luxemburgo eram lidos nos ônibus e nas portas de fábrica. A consciência sobre a exploração de classe e a atuação das grandes corporações no Brasil eram temas debatidos no refeitório. Isso, inevitavelmente, ajudou a catapultar o Diretas Já, inúmeras organizações sindicais e movimentos sociais – e quase elegeu, em 1989, segundo ele, “candidato barbudo, que fumava em público, tomava cachaça 51, falava palavrão, era razoavelmente machista, ex-preso político, mal vestido, com um prontuário para falar, mas era, afinal, a nossa cara”.

Porém, quando chega os anos 90, conta ele, “a esquerda toda aposta na institucionalidade”, abandonando parte do trabalho de base – e, hoje, portanto, perdendo o poder de mobilizar grandes protestos nas ruas do país. Porém, ele acredita que toda a cultura operária produzida entre os anos 70/80 não foi em vão. Elementos cruciais a ela, como táticas de resistência, organização e formação política, podem ser reaproveitadas, principalmente nas periferias, o “novo chão de fábrica” do Brasil. “Tem que olhar com mais atenção esse monte de gente do slam, da poesia e dos saraus da periferia. A capacidade de letra que essa meninada tem, essas meninas jovens, filhas e netas de companheiros, com uma capacidade teórica extraordinária. A ousadia que elas têm quando pisam na universidade. Isso é resultado dos governos Lula e Dilma também, mas não sabemos a força disso que está acontecendo – e é preciso pensar um jeito de destampar essa panela de pressão”, afiança ele.

A fala de Neto está no vídeo acima. A série continua na próxima terça-feira, 16/2. Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), analisa o Sindicalismo 4.0 e as formas de resistência em tempos de precarização da vida.

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