Volta às aulas: risco de pegar covid-19 em locais fechados é até 20 vezes maior do que ao ar livre

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Cientistas e médicos apontam que o coronavírus se acumula no ar e contamina mais em ambientes com pouca ventilação e muitas pessoas, como no caso da volta às aulas

Volta às aulas pode ter efeitos devastadores com confirmação da transmissão da covid-19 a longas distâncias, por aerossóis

São Paulo – Um novo risco para a volta às aulas em meio à pandemia de covid-19 foi apontado por cientistas e médicos na revista Science. Segundo artigo publicado no periódico científico, o risco de contaminação pelo coronavírus em ambientes fechado é até 20 vezes maior do que em áreas abertas. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos também reconheceu recentemente o potencial de risco dos ambientes fechados. Uma sala de aula com 12 alunos e um professor, conforme a proposta do governo paulista, nos ambientes típicos da rede pública – salas pequenas, janelas estreitas e, muitas vezes, travadas –, pode ser um ambiente de alta contaminação.

Segundo os cientistas, além do risco direto de uma gota de saliva ou secreção nasal, existe um alto risco de contaminação pela covid-19 na aspiração de aerossóis exalados por pessoas com ou sem sintomas da doença, emitidos por tosse, fala, espirro ou canto, por exemplo. Com a volta as aulas, as salas de aula serão ambientes propício para transmissão da covid-19.

“Há evidências esmagadoras de que a inalação do novo coronavírus representa uma importante via de transmissão para a covid-19. Portanto, é muito mais provável inalar aerossóis do que uma gota. Por isso, a atenção deve estar focada na proteção contra a transmissão aérea”, afirma o grupo liderado pela pesquisadora Kimberly Prather, da Universidade da Califórnia.

Ainda segundo o documento, os aerossóis podem percorrer distâncias muito maiores do que os dois metros que as gotículas podem chegar. Por isso, recomendam a máxima ventilação de locais fechados e o uso contínuo de máscaras em ambientes onde houver outras pessoas. E também que o maior número possível de atividades seja transferido para o ar livre.

Transferir atividades

“Instamos as autoridades de saúde pública a adicionar instruções claras sobre a importância de transferir as atividades para o ar livre, melhorar o ar de interiores por meio da ventilação e filtração e melhorar a proteção para trabalhadores de alto risco”, dizem os cientistas.

Duas evidências foram definitivas para que os cientistas emitissem o alerta. Primeiro, pesquisas que conseguiram encontrar partículas em aerossóis com carga viral suficiente para contaminar uma pessoa, flutuando no ar a quase cinco metros de distância de uma pessoa doente. Segundo, o registro de vários casos de infecções de grande número de pessoas, que apenas uma transmissão por meio de aerossóis poderia explicar. Casos assim ocorreram na China, nos Estados Unidos e na Coréia do Sul. E podem ocorrer no Brasil, com a volta às aulas.

De acordo com os cientistas, houve uma confusão quanto à mitigação de riscos de contaminação pela covid-19. Enquanto o comércio, bares, restaurantes e academia são reabertos, com limites de capacidade, parques e outros espaços abertos ficaram fechados por mais tempo. Os limites de capacidade também foram aplicados em espaços comerciais com áreas abertas. No entanto, a diluição das partículas é muito maior em espaços abertos, reduzindo o potencial de contaminação.

Ainda o risco

Um simulador de dispersão da covid-19, elaborado por pesquisadores de sete universidades mostrou que, mesmo com todos os protocolos de segurança sendo seguidos, a volta às aulas em São Paulo causaria contaminação pela covid-19 em até 46,35% dos estudantes e professores após três meses.

Isso considerando apenas estudantes dos ensinos fundamental e médio. Mesmo seguindo as regras estabelecidas pelo governo João Doria (PSDB), de até 35% dos alunos participarem das atividades presenciais de cada vez. E partindo de apenas uma pessoa infectada.

Segundo a pesquisa, seria necessário um limite de presença de 6,86% dos estudantes para garantir a segurança da comunidade escolar, o que tornaria a volta às aulas inviável. As simulações utilizaram dois tipos de escolas, com base em dados do Censo Escolar 2019: uma de periferia, com espaços menores e maior quantidade de alunos (comprimida); e outra em bairro rico, com ambiente espaçoso e menos estudantes (dispersa).

Os testes consideraram que a maioria das pessoas respeitaria as regras de higiene, o uso de máscaras e o distanciamento social de 1,5 metro. E que só haveria três cruzamentos entre elas por dia: na entrada, na saída e no recreio.

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