A proposta da Fiocruz para enfrentar o apartheid vacinal

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Durante Cúpula Global de Preparação para Pandemias, da OMS, Nísia Trindade, presidente da Fundação, afirmou que pensa a Saúde como fator de desenvolvimento econômico e social. E defendeu cooperação para descentralizar produção de vacinas

Enfrentando muitos obstáculos com surpreendente obstinação, a colaboração global na Saúde ganha peso crescente. E acaba de dar um passo à frente na Cúpula Global de Preparação para Pandemias, realizada no dia 8/3, em Londres. Durante a reunião, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, abordou as desigualdades entre os países, um tema essencial da conjuntura sanitária e uma preocupação marcante da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente.

De acordo com o portal da Fiocruz, Nísia destacou que reduzir as desigualdades entre os países requer descentralizar a produção de vacinas no mundo e reforçar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento em muito mais países do que agora. “Acredito que iniciativas como a transferência de tecnologia e os hubs (instalações) para compartilhar o conhecimento são muito importantes em termos de cooperação internacional, tanto Sul-Sul, quanto Norte-Sul”, disse ela. “Falo como presidente de uma instituição pública”, acrescentou, “que pensa a Saúde também como fator de desenvolvimento econômico e social”.

A Cúpula deu partida a uma jornada desafiadora, que busca dar um grande salto na proteção da população planetária contra epidemias e pandemias – especialmente na proteção dos países de renda média baixa e baixa. A “Missão 100 Dias” tem “a ambição de criar vacinas seguras e eficazes apenas 100 dias após a identificação de uma epidemia ou ameaça pandêmica”, conforme explicou a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi na sigla inglesa), de cujo Conselho Nísia participa.

Nísia participou do painel “Impulsionando a produção de vacinas”, ao lado de especialistas como Jae-yong Ahn, presidente da empresa SK Bioscience, da Coreia do Sul; Mahima Datla, diretora da indiana Biological E Limited; e Thomas Cueni, diretor geral da International Federation of Pharmaceutical Manufacturers and Associations. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, presente ao encontro, prometeu investir 650 milhões de dólares na nova fábrica de vacinas da Fiocruz em sua fala. Queiroga deve deixar a pasta no mês que vem para se candidatar à vaga de senador pela Paraíba.

A OMS tem feito um esforço notável em todas as iniciativas correntes para diminuir as desigualdades sanitárias que secularmente afligem os países menos privilegiados, ou os que têm renda média razoável mas a média é feita de enormes disparidades internas, como no caso do Brasil. A Organização venceu grandes atropelos na campanha para levar vacinas, remédios e equipamentos aos países desfavorecidos. E ainda encontra dificuldade imensa, como mostra o seu mecanismo Covax, que procura reduzir o acesso desigual das populações à Saúde. Ainda há 23 países que não vacinaram totalmente nem 10% de suas populações; 73 países ainda não atingiram 40% de cobertura e muitos outros devem perder a meta de vacinar 70% até meados deste ano.

Ainda assim, houve progresso que vale a pena comemorar, diz o Unicef, Fundo da ONU para as Crianças. As restrições de fornecimento de vacinas que havia no ano passado diminuíram, e os esforços agora podem se concentrar em apoiar os países a aumentar suas taxas de vacinação. Há um ano a Covax fez uma primeira grande de vacinas mas que chegava apenas a 600.000 doses. Em abril ainda estava no patamar de 40 milhões de doses, e até fevereiro passado estava empacada em 500 milhões de doses. Só aí deslanchou, e em um mês alcançou 1,36 bilhão de doses entregues a 144 países.

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