Drauzio Varella: “Desigualdade social no Brasil é imoral”

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O médico Drauzio Varella, em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta. Foto: Reprodução

O MÉDICO DRAUZIO VARELLA, EM ENTREVISTA AO DIRETOR DE REDAÇÃO DE CARTACAPITAL, MINO CARTA. FOTO: REPRODUÇÃO

Em entrevista a CartaCapital, médico e escritor comentou sobre o impacto da pandemia nas populações mais pobres

Para o médico e escritor Drauzio Varella, a pandemia do novo coronavírus deu destaque ao que chamou de imoralidade da desigualdade econômica no Brasil. Em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta, o cientista comentou sobre os impactos da doença nos cinturões de pobreza do País e criticou a falta de responsabilidade na atuação de governantes diante das diferenças entre as classes.

 

“A epidemia está mostrando para nós o que acontece quando você tem um desafio, um problema que realmente se instala num país, como se instalou em muitos outros, mas num país com essa desigualdade social que é imoral. É imoral porque você chega a um desnível social num país rico como o nosso e você deixa gente na mais absoluta miséria”, afirmou.

Em um primeiro aspecto, aponta Drauzio Varella, somente uma parcela da sociedade pôde adotar o isolamento social, porque detém moradias decentes e suporte financeiro. Já os moradores das regiões periféricas se veem obrigados a sair de casa, seja por se sustentarem na informalidade, seja por trabalharem em postos essenciais.

“Você tem aqueles que não têm condição de ficar em casa. No Brasil, são muitos. Você diz: ‘bom, temos que manter os serviços essenciais’. Lógico. E quem é que presta os serviços essenciais? Quem mora na periferia: empregados de supermercados, das padarias, os seguranças. Tá na cara que isso [a pandemia] ia atingir essa população. E você dissemina [a doença] na própria família”, disse.

No caso das empresas que podem manter os seus empregados em casa, o médico recomendou que a orientação do isolamento seja mantida.

Já em relação à retomada das atividades escolares, o médico pede uma atenção maior dos governantes, que segundo ele têm tratado o tema de forma “irresponsável”.

Ele diz que a decisão não é puramente médica. Enquanto há crianças com acesso a banda larga e a todas as aulas via internet, outras não têm computadores, celulares e muitas vezes nem alimentação, tornando-se dependentes das escolas para fazer refeições regulares. Além disso, chama atenção para a necessidade de estimular o aprendizado nas crianças no momento certo, para evitar o desenvolvimento de déficits cognitivos.

Por outro lado, ressalta que muitos professores são do grupo de risco, com mais idade ou com pressão alta, obesidade e demais características que aumentam a gravidade de uma eventual infecção.

“Você diz: vamos estudar como se volta à aula. Se for só quando não tiver mais nenhum caso no Brasil, esquece. Aí nem no ano que vem vai dar pra voltar. Então uma hora nós vamos ter que voltar”, diz o médico. “Quais medidas têm que preceder a volta às aulas? Tem que fazer os materiais de proteção chegarem para professores, funcionários, a senhora da limpeza, o segurança, com máscaras, face-shields, álcool em gel. Distribuir esses kits pelo país não é tarefa simples”, completa.

Vacina não será solução milagrosa

Drauzio Varella afirma que a vacina contra o novo coronavírus não deve representar uma “solução milagrosa”, porque a expectativa dos cientistas é de uma eficácia mais baixa, e ainda há dúvidas sobre a sua durabilidade.

“A vacina vai proteger 98% dos infectados? Nenhum cientista diz isso. Provavelmente vai ter uma eficácia mais baixa”, afirma. “Será que essa imunidade vai ser suficiente para proteger a gente por anos? Nós não sabemos”.

Na visão do médico, os estudos devem se voltar para o desenvolvimento de um antiviral, a ser aplicado como tratamento do paciente na janela dos primeiros dias da doença.

O escritor diz que a Covid-19 tem uma característica que ele não havia visto até então, como nas epidemias de meningite e de AIDS, quando os infectados apresentavam quadros graves e necessitavam de cuidados intensivos.

“Esta não [a Covid-19]. Você pega o vírus, 40% não sentem nada. Vão saber se fizerem o teste. Outros 40% têm um quadro gripal, e podem ter uma gripe daquelas que joga a gente na cama. E você fica com 20% que vão precisar de internação no hospital. O mesmo vírus provoca desde ‘nada’ até um quadro potencialmente fatal. É uma gama de quadros clínicos absurda, impressionante”, comentou o especialista.

 

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