Testes de qualidade da água reprovam 97% dos agrotóxicos usados na cana

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Portaria do Ministério da Saúde que embasa programa nacional de vigilância da água não inclui os 20 produtos mais usados na cana, principal cultura agrícola de São Paulo

qualidade da água é afetada por pulverizações aéreas de agrotóxicos em diversas regiões do estado

São Paulo – A água que sai de boa parte das torneiras espalhadas pelo estado de São Paulo pode estar contaminada por perigosos agrotóxicos, a maioria deles proibidos em países da União Europeia justamente por estarem associados a diversos tipos de câncer e malformações congênitas, entre outros problemas graves. E, para piorar, trata-se de agrotóxicos que sequer constam da lista da Portaria da Potabilidade da Água do Ministério da Saúde, que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano.

Ou seja, como não estão entre aqueles considerados causadores de risco à saúde humana em portaria atualizada em maio de 2021, durante a gestão do então ministro Marcelo Queiroga, nem são monitorados pelas companhias de saneamento. E a água contaminada com esses agrotóxicos, entre eles a azoxistrobina, trietanolamina, etefom, bispiribaqui-sódico, picoxistrobina e a flubendiamida, pode até receber nota de conformidade com a norma do Ministério quando, na realidade, vai causando doenças na população.

O alerta foi feito ontem (11) pelo defensor público Marcelo Novaes durante audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em defesa da aprovação do Projeto de Lei 1227/2019, que cria a Política Estadual de Redução de Agrotóxicos. Marcelo partiu de um parecer dos professores Sonia Hess e Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que analisaram mapas de pulverizações aéreas de agrotóxicos em diversas regiões do estado paulista obtidos pela Defensoria. Ele é coordenador do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos.

Veneno na água e na alimentação

Em São Paulo, as regiões que demandam doses ainda maiores de agrotóxicos são, entre outras, Ribeirão Preto, Batatais, São João da Boa Vista e Presidente Prudente. É nelas que predomina o monocultivo da cana, que praticamente tomou conta do estado. E mais agrotóxicos vêm sendo usados agora, com a versão transgênica da cana.

“O agronegócio é basicamente soja, milho, cana e algodão, que representam 80% do consumo de agrotóxicos. São cerca de 20 produtos, no máximo, de cada empresa, usados pelo agronegócio. A análise dos mapas mostrou que os 20 produtos mais usados na cana em Ribeirão Preto, o que se repete nas outras microrregiões, podem conter vários princípios ativos e são produzidos por grandes empresas. E não são pesquisados pela portaria da água. Então, os relatórios a partir dessa portaria são ‘frios’”, destacou o defensor, que atua em Santo André, no ABC paulista.

A deputada Márcia Lia, líder da bancada do PT na Alesp e coautora do PL da redução do uso de agrotóxicos, cobrou a tramitação da proposta, parada há dois anos com o relator, o deputado Thiago Auricchio, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). “O deputado é contra que vote contra, mas não pode ficar por dois anos segurando o projeto de lei”, disse. O presidente da Casa, deputado Carlão Pignatari, se comprometeu a recolher o projeto e distribui-lo a outro relator.

Na avaliação da parlamentar, a audiência confirmou a urgência da aprovação. “O PL que cria a Política Estadual de Redução de Agrotóxicos e é um marco no início da luta coletiva, suprapartidária. Nós vamos dialogar com a população sobre a urgência disso, esclarecer, trazer o debate efetivo do quanto de veneno estamos consumindo na alimentação. A tramitação desse PL está parada nas comissões desde março de 2020 e nós precisamos que um assunto de tamanha importância para a vida de todos nós seja debatido e aprovado”.

Participaram também da audiência a pesquisadora da Unesp Yamila Goldfarb, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida; Claudimar Amaro, médico da Unidade Básica de Saúde Adão do Carmo, da Prefeitura de Ribeirão Preto e membro do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes); além de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra e demais movimentos em defesa da saúde, meio ambiente e agricultura familiar.

Confira a audiência na íntegra

 

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