WikiFavelas: as tecnologias reinventadas pela periferia

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Elas são essenciais à formação cidadã, aponta o Dicionário Marielle Franco. De inovações na economia solidária a lan houses, alçadas a espaços de encontro e cultura digital das juventudes, elas mostram saídas às distopias tecnológicas

Introdução

As tecnologias são marcadas por uma ambivalência. Podem ser tanto utilizadas para dominação como para libertação. Em outra matéria relatamos casos de racismo algorítmico e monitoramento por vídeo, o que mostra como as tecnologias digitais podem ter um papel de repressão e impulsionamento do encarceramento em massa da população favelada. Por outro lado, as tecnologias digitais também podem se configurar como meios para visibilizar as potências e denunciar os problemas das favelas. Neste artigo apresentamos algumas iniciativas que utilizam as tecnologias digitais para promover a sociabilidade nas favelas e expressar a realidade dos moradores.

Conforme Beatriz Carvalho explica, “a forma que a internet chega nas periferias cariocas quase sempre é precária”, assim, o projeto Mulheres de Frente produz cursos, consultorias, palestras e oficinas que envolvam tecnologia digital, com objetivo de prover às mulheres acesso à cultura digital na Baixada Fluminense e na Zona Oeste. O Pipas Labs Casa Voz por sua vez atua com crianças e jovens do Complexo do Alemão na “experimentação lúdica e inovação tecnológica”. A maioria dessas iniciativas são realizadas por organizações sociais, sendo que algumas recebem apoio de governos ou empresas. Um exemplo de iniciativa em parceria com governo são as Fábricas de Cultura que realizam atividades artísticas, mantém bibliotecas e também produções de artes digitais. Essas iniciativas são um ponto de encontro da juventude e, assim, possibilitam a exploração de novas formas de sociabilidade, utilizando a internet como meio de expressão.

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O empreendedorismo digital é outro elemento que mobiliza as favelas. A Favela Inc realiza capacitações nas áreas de “gestão de negócios, educação financeira, marketing digital e desenvolvimento pessoal”. A plataforma digital Transformadores também busca “trabalhar o fortalecimento da imagem das comunidades e de seus moradores, enfatizando casos de sucesso e o potencial dessas áreas urbanas, com o intuito de atrair mais negócios, ampliar os que já existem nessas regiões e mitigar o preconceito na contratação de moradores de comunidades”. O empreendedorismo é uma questão controversa. Embora a ideia de autoempregabilidade possa ser vista como uma nova forma de precarização, não se pode ignorar que esse assunto é parte das realidades nas favelas e as tecnologias digitais são um meio para realização dessas atividades empreendedoras. Uma alternativa é pensar o desenvolvimento econômico e a resiliência local a partir da economia solidária, como faz, por exemplo, o Banco Comunitário do Preventório (veja mais aqui e aqui).

Por fim, a expressão digital também é marca das favelas. Uma vez que as comunicações digitais diminuíram os custos para produção e emissão de conteúdo (hoje pode-se fazer um vídeo e rapidamente divulgá-lo no YouTube), diversas iniciativas de comunicação digital emergiram nas favelas. Um exemplo é a plataforma Bombozila que surgiu quando “durante as Olimpíadas de 2016 do Rio de Janeiro, um grupo de jornalistas e midiativistas de toda a América Latina se uniram para documentar os abusos cometidos antes e durante o megaevento”. Outro exemplo é a rádio Web Manguinhos Livre, uma iniciativa do Ecomuseu de Manguinhos em parceria com estudantes de ensino médio do Colégio Estadual Clóvis Monteiro. Abaixo reproduzimos o artigo de Pâmela Passos, sobre as Lan-House nas favelas. (Introdução e seleção: Equipe Dicionário de Favelas Marielle Franco)

Lan House na favela

Fruto de uma pesquisa de doutorado realizada entre os anos de 2009 e 2013 nas favelas de Acari e Santa Marta, e publicada como livro em 2018, as reflexões deste verbete pretendem ampliar o olhar sobre as favelas cariocas e também sobre o fazer pesquisa nesses territórios. Ao pesquisar lan houses em duas favelas, tive um vasto horizonte que possibilitou inúmeras reflexões que buscarei compartilhar nessas páginas.

Cabe destacar que os dados apresentados dizem respeito ao período no qual a pesquisa foi desenvolvida e que, por isso, podem não mais refletir o cenário atual desses estabelecimentos. No entanto, compreendo como atuais as questões que emergiram deste campo no qual o espaço da lan house apresentou-se como um dispositivo para pensar as práticas culturais e sociais em Acari e no Santa Marta.

Nesse sentido, um dicionário cujo a temática são as favelas cariocas dialoga intensamente com as reflexões que cheguei ao concluir a pesquisa. Dentre elas, destaco inicialmente a pluralidade dos usos e apropriações dos espaços nas favelas e, por isso, quero aqui compartilhar o que encontrei nas lan houses que acompanhei durante os anos de doutorado.

Como caminhos norteadores desta escrita são elencadas três questões a serem apresentadas:

  1. A imposição da discussão sobre segurança pública e UPPs;
  2. Donos de lan house e seus atendentes: um papel social a ser pensado;
  3. A lan house como um ponto de encontro juvenil, espaço de educação não formal e aprendizagem.

A imposição da discussão sobre segurança pública e UPPs

O primeiro tópico diz respeito a violência física e simbólica a que são submetidos os moradores das favelas cariocas – seja pelo varejo do tráfico ou pelo poder público. Em nossa pesquisa, o que encontramos foi um cotidiano militarizado no qual foi impossível estudar as lan houses e as práticas sociais e culturais que nela ocorriam sem realizar uma importante análise da segurança pública.

Nossa pesquisa coincidiu com o início da implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Apresentadas como um modelo que solucionaria os problemas de segurança pública da cidade, as UPPs em 2019, pouco mais de 10 anos após a instalação da primeira Unidade no morro Santa Marta, estão falidas, deixando patente as falhas deste modelo.

Uma das favelas estudadas, o morro Santa Marta, foi a primeira a receber a UPP tornando-se assim uma “favela modelo”. Durante minha pesquisa que, cabe sempre ressaltar, não era sobre segurança pública, deparei-me com essa questão, inúmeras vezes, percebendo os impactos concretos e cotidianos da militarização da vida.

A ausência de mandado para realização das revistas é algo que permaneceu também nas favelas pacificadas, fator que foi recorrente alvo de críticas por parte dos moradores e de organizações de direitos humanos, visto que os policiais se utilizavam do domínio do poder no território para impor sua presença. No caso do Santa Marta, após desligar o gravador em uma de nossas entrevistas, o dono da lan house, acompanhado por nossa pesquisa, contou sobre uma abordagem policial em seu estabelecimento.

Segundo Wagner1 nos relatou na conversa, eles queriam ganhar algum, mas ele não se intimidou e falou que sabia dos seus direitos e que, se estava errado, tudo bem, ele parava. Foi então que um policial perguntou os valores cobrados por ele na lan house, afirmando que ele poderia ganhar mais. Wagner, então, informa que respondeu dizendo que não queria ganhar mais dinheiro e sim diminuir seus gastos2.

Episódios como este também foram relatados por Freitas3, dono da lan house em Acari. O clima de constante vigia e necessidade de explicar-se era presente em ambas as lan houses que acompanhei. Ainda que envolvendo mais diretamente a questão policial e suas práticas, os episódios que acabei de relatar também possuem uma importante interface econômica em suas análises. Em geral, as irregularidades questionadas pelos agentes do estado e apresentadas pelos donos das lan houses são “contra” empresas privadas, por exemplo: concessionária de energia elétrica (Light), empresa de internet banda larga (OI) e empresas de softwares, como jogos. Resgata-se, assim, a importância de se discutir a perspectiva econômica que baliza as ações de Segurança Pública no Rio de Janeiro.

Retomando então esse aspecto, apresento algumas observações em relação aos desdobramentos econômicos da implementação da Unidade de Polícia Pacificadora. Esclareço, novamente, que não se trata de um estudo apurado sobre o assunto, mas sim de análises a partir do que registrei na experiência do acompanhamento de um empreendimento econômico (lan house) no morro Santa Marta.

No caso do Santa Marta, pudemos acompanhar que, conjuntamente com a UPP, diversas empresas entraram na favela. Nesse contexto, o SEBRAE4 ofereceu cursos de empreendedorismo para os moradores, incentivando a abertura de microempresas, apresentando possibilidades de empréstimos com baixas taxas de juros e silenciando acerca dos impactos que tal formalização poderia trazer ao orçamento da lan house.

Poucos meses após a formalização de sua lan house, Wagner identificava uma perda de lucro de 30% a 40%. Tal perda não foi prevista por um estudo de viabilidade que pudesse assegurá-lo de que essa perda não afetaria suas finanças a ponto de perder clientes e inviabilizar seu funcionamento, situação que de fato ocorreu no final da pesquisa quando a lan house é fechada para abrir uma loja de roupas para a esposa de Wagner.

No contexto pesquisado, as lan houses em favelas, em especial nas favelas pacificadas, enfrentavam: os entraves legislativos, o abuso policial e os impactos econômicos. Navegando contra a maré em meio a tantas adversidades, os donos de lan house e seus atendentes, por vezes familiares, continuaram investindo e prestando serviços à comunidade.

Donos de lan house e seus atendentes: um papel social a ser pensado

De acordo com dados oferecidos pelo TIC Lan houses 2010, pesquisa feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), a maior parte das lan houses são empreendimentos familiares, o que significa dizer que o dono, e porventura atendentes, são da mesma família, não necessariamente recebendo remuneração. O que observei em minha pesquisa de campo corrobora tais dados e também revela um papel social desempenhado pelo proprietário do espaço e seus atendentes, segundo tópico que abordarei neste verbete.

Como exemplo destaco o caso de Acari no qual, devido à impossibilidade de obter o serviço de internet diretamente da empresa de banda larga, já que nenhuma empresa entrava, de forma regular, dentro desta favela, Freitas foi obrigado a negociar com um amigo que morava fora de Acari, para que ele, custeado por Freitas, assinasse o serviço e ele captasse o sinal via antena que ele próprio instalou. Este arranjo tecnológico transformou a lan house de Freitas em referência, visto que era conhecida por ter a internet mais rápida de Acari.

Outro ponto importante é o papel desempenhado pelos atendentes das lan houses que acompanhamos. A atenção dispensada ao cliente, mesmo quando ele não solicita diretamente a ajuda, e a linguagem usada demonstram um elemento da educação popular presente nesta função.

Em sua pesquisa sobre lan houses em duas favelas cariocas, Carla Barros também vislumbra o caráter educativo dos atendentes de lan house, afirmando que “são personagens-chave nos ambientes públicos de acesso à internet, intermediando o contato com o universo digital para os que não se sentem à vontade ou não sabem como circular por esse mundo.”5

Os relatos apresentados pelos donos e atendentes das duas lan houses que acompanhamos em Acari e no Santa Marta nos indicam que as dúvidas apresentadas pelos usuários no cotidiano da lan house não demandavam muito conhecimento técnico, mas sim paciência e didática. Arriscamos dizer que, como alfabetizadores digitais, esses atendentes de lan house podem não dominar a gramática, no entanto estão diariamente contribuindo para produção de novos leitores neste mundo interconectado pela internet.

A lan house como um ponto de encontro juvenil, espaço de educação não formal e aprendizagem

Outro aspecto importante trazido por Wagner e Freitas é o caráter de “tomar conta” de crianças e jovens, que tais atendentes assumem. Este papel também foi indicado por Barros6, em especial no que tange à possibilidade de ligação telefônica para “conferir” a presença do filho no estabelecimento. No contexto dos espaços populares, com ausência de praças e quadras e com pais que trabalham todo dia, somado à febre contemporânea, e não apenas juvenil, de acesso à internet, a lan house na favela assume um papel especial de diversão, e a nosso ver aprendizagem, com segurança para crianças e jovens.

Assim como as quadras de futebol e as pracinhas significavam um território de encontro, de identidade, de troca e pertencimento, arriscamos dizer que, na conjuntura globalizada e conectada, a lan house vem também assumindo tais funções. Chegamos aqui ao último ponto que desejo destacar: a lan house como espaço multipropósito no qual há diversão, aprendizado e encontros.

Sabemos que diversos jogos permitem a interação online, no entanto, o que percebi nas falas desses jovens que frequentavam as lans em Acari e no Santa Marta é que o contato virtual ou online não substitui o encontro físico, o “pescotapa” ou “pedala Robinho”, entre amigos. Aprendi que jogar sozinho não significa não estar em rede, mas não estar com a rede, como explica um dos participantes da oficina no Santa Marta.

Fazendo referência aos cursos oferecidos pelo poder público, na sede de uma escola pública estadual profissionalizante, aberta na subida do morro Santa Marta, os participantes dessa oficina falam do descompasso entre o que é ensinado e as suas realidades. Mesmo achando que nossas oficinas7 seriam chatas, “como os cursos da FAETEC”, eles apostaram, talvez por acontecerem no ambiente da lan house.

Cabe aqui compartilhar que a última oficina feita no Santa Marta, devido a imprevistos, foi realizada às 10h de um domingo de sol e com jogo da seleção brasileira à tarde. Mesmo neste cenário, a presença foi massiva, estavam eles lá, desejosos por conhecer algo diferente, de aprender, desde que a partir das suas demandas, coisa que infelizmente a instituição escolar não tem feito.

Responsabilizada pela evasão dos alunos dos bancos escolares, as lan houes foram colocadas numa oposição à escola e à educação. Ao ler reportagem que versava sobre este tema para os participantes das oficinas, a reação dos meninos era quase sempre a mesma. Balançavam a cabeça negativamente e, apesar de em alguns casos reconhecerem que matavam aula para ir à lan house, diziam, no geral, que a escola era chata e que a proibição não adiantaria.

No século da informação e da velocidade, a escola foi destronada de seu lugar de saber e sociabilidade, o que não anula a permanência bastante intensa de tais dimensões na instituição escolar. No entanto, os jovens do século XXI, com cada vez mais frequência, aprendem e se socializam para além ou apesar da escola, e a nosso ver um espaço que, na realidade das favelas cariocas, assume um lugar especial para tais finalidades, é a lan house.

O objetivo aqui não é a lan house assumir as tarefas e metas de que a instituição escolar não dá mais conta, mas sim, que tais espaços sejam reconhecidos como produtores de saber, cultura e sociabilidades. Criando novas relações com o saber, os frequentadores das lan houses aprendem inglês jogando, manipulam tecnologias baixando música, passando vídeos por bluetooth, entrando e saindo de sites para aprender o que desejam. Assim, eles criam novas formas de aprender a partir de seus desejos e, por consequência, aprendem somente o que para eles importa. Eis um ponto crítico para se pensar as políticas públicas que, em geral, são formuladas a partir de dados estatísticos frios.

Tais estatísticas, no geral, são oriundas da aplicação de questionários, com perguntas objetivas, esquecendo-se de que as perguntas que fazemos dialogam também com os resultados que queremos. Revelador de novas demandas e práticas juvenis das classes populares urbanas, vislumbramos a lan house como um importante campo de estudo para quem deseja investigar as juventudes contemporâneas.

Mas, diferentemente do que muitas visões simplistas sobre as favelas apontam, o estigma de classes perigosas e a ausência de ações sociais estruturais, e não apenas temporárias, nesses locais, não produziu apenas falta e carência. Reinventando-se, os favelados enriqueceram e enriquecem ainda mais sua cultura.

Ao identificar esses aspectos, compreendemos que a aquisição de um computador pessoal e a possibilidade de acessar a internet de sua casa não suprirão o desejo de ir à lan house. Sim, necessidade é diferente de desejo, e os moradores de Acari e do Santa Marta nos ensinaram essa distinção, ao nos comprovar que a ida à lan não era fruto da falta de um computador ou internet e sim do querer estar junto.

Verbete em destaqueLan Houses nas favelas


1Utilizamos pseudônimo

2Diário de Campo. Santa Marta. 1401.2011

3Utilizamos pseudônimo

4Serviço brasileiro de apoio às micro e pequenas empresas.

5BARROS, Carla. Reflexões sobre entretenimento, educação e distinção em contextos de “inclusão digital”. In: FERRAZ, Joana Varon & LEMOS, Ronaldo. Pontos de Cultura e lan houses: estruturas para a inovação na base da pirâmide social. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, 2011, p. 111.

6BARROS, Carla. Reflexões sobre entretenimento, educação e distinção em contextos de “inclusão digital”. In: FERRAZ, Joana Varon & LEMOS, Ronaldo. Pontos de Cultura e lan houses: estruturas para a inovação na base da pirâmide social. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, 2011.

7Foram feitas oficinas durante a pesquisa e que funcionaram como grupos focais.

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