“A sutil diferença entre perdoar e esquecer” – Por Janaína de Oliveira Ribeiro

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*Por Janaína de Oliveira Ribeiro, em 10/04/2024.

Superar situações, problemas, dificuldades, dores. O que é superar? Simplesmente esquecer e seguir a vida, esperar que o tempo torne as coisas mais amenas e suportáveis? Mas, e quando a memória trai? E quando uma situação se repete, como um Déjà Vu, uma piada de mal gosto da vida. É então que tudo retorna como se não houvesse passado nem um segundo sequer do acontecimento que gerou a dor, do que provocou a angústia.

A ferida continuava lá, ainda aberta, talvez os pontos costurados pelo tempo estivessem segurando as coisas, mantendo a ordem de forma precária, mas então quando vem à tona as lembranças, os pontos tão frágeis do tempo se rompem e tudo sangra novamente, às vezes até mais intensamente que antes.

O perigo de esquecer é um dia ter que lembrar e então começam os outros sintomas, o não acreditar, o não tentar, o “ah isso não é pra mim”. Porque lembrar dói demais, então inevitavelmente vem a fuga. “Não quero, para não sofrer tudo de novo”; “não posso, porque vai doer de novo”; “não é para mim, porque se acontecer de novo eu não vou aguentar”. Eis a diferença entre esquecer e perdoar ou, de fato, superar. A dor existiu, e ainda existe, mas as lembranças não fazem os pontos rasgarem, não.

O perdão faz com que a dor diminua, os pontos são fechados lentamente, é claro, um a um, fica a cicatriz, e como em qualquer ser humano, cada um tem uma forma diferente de cicatrização, um tempo diferente. Algumas pessoas por menor que seja o corte, mantém cicatrizes grandes na pele, isso vale também para a alma, para
o ser. Outros não, nem parecem que carregam qualquer cicatriz, qualquer machucado que seja.

Perdoar é difícil, porque, até perdoar, você precisar ir ao encontro da sua dor, confrontar, não é o tempo quem fabrica a costura, são suas mãos, inserindo ponto a ponto, de forma lenta e dolorosa, mas esses pontos não são de qualquer material, são da própria pele, fechando a ferida de forma definitiva. Esquecer é mais fácil, ocupar a cabeça e o tempo com outras coisas, não parar, até que o corpo inteiro se desfaça em cansaço, achando que está tudo bem, mas não fica tudo bem por muito tempo. Deus, a vida ou o destino, chame do que quiser, vai te apresentar alguma situação teste, e quem simplesmente fechou as lembranças e a dor em uma caixa e deixou esquecida em algum canto, vai falhar nesse teste.

A maior dificuldade nisso tudo creio eu que não seja perdoar os outros, mas a si mesmo. Mesmo quando somos vítimas das ações ou escolhas de outros, buscamos em nós a culpa, transformamos o sentimento de dor em “e se”, ou em “será que”. O ser questionador que nos habita, o ser que pensa, logo existe, nos transforma em algozes de nós mesmos, sempre buscando uma culpa que não existe, que provavelmente nunca existiu.

Perdoar não é esquecer, perdoar é aceitar que todo mundo em algum momento pode fazer escolhas ruins, que sofremos as consequências dessas escolhas, que sangramos, mas que não somos obrigados a continuar sangrando, que não somos reféns desses momentos doloroso, e que podemos sim aprender com esses erros e dores. Mas também nos dá a chance de tentar novamente, mesmo que haja a insegurança de uma nova cicatriz e um novo processo doloroso, mas nos dá a liberdade de tentar, de viver novamente.

*Janaína é associada da AFBNB e escritora

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