Tão ruim quanto o fascismo é a ausência de antifascismo. Por Ademar Lourenço.

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Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

O povoado de Waldsiedlung, na Alemanha, tem 2.600 habitantes e nenhuma importância para o mundo se não fosse a eleição de um prefeito neonazista em 2019. O país inteiro ficou chocado e lideranças políticas nacionais se mobilizaram para que a decisão fosse revertida (a eleição é indireta, indicação de vereadores). Annegret Kramp-Karrenbauer, sucessora de Angela Merkel na direção do CDU, maior partido do país, prometeu investigar o tema e pediu que a eleição fosse revogada. O líder nacional do SPD, segundo maior partido, também prometeu agir. Tudo isto em função da prefeitura de uma cidade de 2.600 habitantes. Na Alemanha, não basta não ser nazista. Tem que ser antinazista. O país foi destruído por uma guerra, ficou com um grande estigma, mas a maioria aprendeu a lição.

Santa Catarina é um estado com 7 milhões de habitantes, mais de 3% de toda a população do Brasil. Tem o 7º maior PIB. O governador ou governadora de Santa Catarina tem, entre outros poderes, o comando da polícia militar, polícia civil e corpo de bombeiros do estado. Define as políticas para o ensino médio e indica reitores de universidades estaduais. No mesmo ano de 2019, o cargo foi ocupada por Daniela Reinehr, filha de um nazista declarado. Ela não tem culpa dos seus laços de família, mas evitou condenar as ideias do pai. Pouca gente sequer ficou sabendo. No Brasil, não é preciso ser antifascista. Basta não ter uma suástica tatuada na testa que está tudo bem.

Esta diferença é crucial para responder à famosa pergunta: porque Bolsonaro ganhou as eleições e segue governando mesmo com todas as atrocidades cometidas? A resposta não está apenas naqueles 15% da população que apoia fielmente suas ideias. Ou naqueles milhares que vão às ruas em favor do Presidente e compartilham os conteúdos bolsonaristas nas redes sociais.

Tanto no Brasil quanto na Alemanha, existe uma parte da população que tende ao fascismo. Talvez de 10% a 20%. Mas lá, os outros 80% a 90% da população têm fortes tendências antifascistas. Já aqui, o fascismo é tolerado. E isto faz toda a diferença.

Uma situação pela qual muitos de nós já passamos

A abordagem política do fascista é agressiva e insistente. Tão insistente que a vítima desta abordagem é tentada a concordar com o sujeito apenas para evitar a discussão. Discutir com um fanático é um desgaste emocional e mental que poucos estão dispostos a fazer.

Quando não há resistência organizada e coletiva, os extremistas de direita têm liberdade para falar todo tipo de atrocidade e ofender as pessoas em público. Nos grupos de whatsapp, nas mesas de bar, nas reuniões de família. A lógica do “é melhor deixar ele falando” dá autoridade ao fascista. E ele acaba convencendo a maioria das pessoas por intimidação.

Isto internaliza em várias pessoas a ideia de que o fascismo “não é tão ruim assim”. A intimidação se torna um vínculo, de maneira parecida com “Síndrome de Estocolmo”. E como boa parte dos fascistas são homens, brancos e de posição social mais alta, a intimidação é facilitada. É mais fácil impor o medo quando se tem privilégios.

E se alguém discorda? A pessoa é agressivamente atacada. Aí a maioria fica no dilema de se solidarizar ou não. Como isto também seria entrar em uma briga desgastante, melhor deixar “cada um com seus problemas”. Isto ajuda a silenciar vozes dissidentes. Só o fascista acaba tendo o direito de falar em público.

Estudar a ausência de antifascismo em nossa sociedade é fundamental

Litros de tinta foram usados para explicar porque uma parcela da sociedade adere ao extremismo de direita. Já sabemos muita coisa sobre o ressentimento do homem branco de classe média que tenta extravasar seus fracassos por meio da violência política. Mas pouco sabemos sobre as milhões de pessoas comuns que não têm simpatia pelas ideias fascistas em geral, mas vota em políticos fascistas, concorda com parte de suas opiniões ou acha que os fascistas são um contraponto necessário à “esquerda radical”.

O conformismo social e a adesão a ideias extremistas não por convicção, mas por comodismo, é algo que merece nossa atenção. Temos o exemplo do Brasil dos últimos meses. A maioria da população sabe que a Covid-19 não é uma “gripezinha”. Sabe que o distanciamento social salvou vidas. Mas esta mesma maioria ainda não está disposta a se mobilizar contra um Presidente que promoveu aglomerações e incentivou as pessoas a se contaminarem.

Parte da explicação pode estar no fenômeno social do fatalismo. A ideia de que as desgraças da vida são frutos do destino e “as coisas são como são e não tem o que fazer”. Muitos acham que Bolsonaro é um boçal, mas “homem é assim mesmo”. Acham ruim a morte de 200 mil brasileiros por Covid-19, mas “quando Deus quer e é o dia da pessoa, não tem jeito”.

O enfraquecimentos dos laços de solidariedade social pode ser outra explicação para a tolerância ao fascismo. A pessoa apenas se preocupa se ela ou um familiar dela for diretamente atingido. Se uma doença matou 200 mil desconhecidos e a culpa é do governo, o cidadão conformado não tem motivos para se indignar.

Outros fenômenos, como o negacionismo ou medo de quem está em posição de autoridade também podem ajudar a explicar. Enfim, muita tinta tem que ser gasta para entendermos a existência da parcela da população que não concorda com ideias reacionárias, mas, diante do assédio político, cede a elas. Porque é esta parcela que faz a diferença. Se 1% da população é fascista, mas os outros 99% não são antifascistas, os fascismo vence no grito.

Mobilizar quem já é antifascista, dialogar com quem ainda está em cima do muro, não perder tempo com quem já se decidiu pelo campo inimigo

A boa notícia é que, apesar de minoritária, uma parte da população já rejeita com convicção pessoas como Jair Bolsonaro. É gente o suficiente para ir às ruas e chamar a atenção da maioria. Com isto é possível aumentar a rejeição ao governo. Porque será a rejeição o fator decisivo para enfraquecer os milicianos que estão no Palácio do Planalto. A aprovação do Presidente só vai cair para menos dos famosos 30% se as pessoas que ainda têm coragem de falar bem de Bolsonaro se sentirem isoladas. É bom lembrar que cerca de 25% da população ainda acha o governo “razoável”. Essa parcela é o fiel da balança.

Não adianta perder tempo com um fascista convicto. O debate com ele só vale a pena para desautoriza-lo diante das outras pessoas. Ele não será convencido. É necessário trazer para as ruas aqueles que já rejeitam as ideias reacionárias. E também conversar pacientemente com a população que ainda está conformada com a situação. Os maus são minoria. Mas com a ajuda dos acomodados conseguem mandar no mundo. Precisamos convencer a maioria a querer mais da vida, a ser otimista com a História.

 

 

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