“Política na Suíça não é showbiz”, diz deputada estadual brasileira no país

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Carine em sessão no parlamento em 2021
Carine em sessão no parlamento em 2021 © Divulgação
Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça 

Carine Carvalho Arruda é do partido socialista e tem mandato até 2022 como deputada estadual. Ela vai ao Parlamento uma vez por semana – geralmente, de bicicleta – e, nos outros dias, trabalha como diretora da Secretaria de Igualdade de Gênero de uma universidade. Carine é brasileira e está há mais de 20 anos na Suíça.

“Como deputada, vou para o plenário às terças-feiras. Trabalhamos das 9h às 16h. Votamos todas as propostas de lei, de investimentos e de verbas públicas. Fora isso, tem também as comissões parlamentares: algumas são permanentes, como a de gestão – e eu sou membro dessa comissão, que é de fiscalização da ação do Estado. Só vou para o Parlamento um dia por semana. No resto do tempo, trabalho na Universidade de Lausanne como diretora da Secretaria de Igualdade de Gênero. Essa é a minha atividade profissional principal. Já trabalho lá há 15 anos”, conta.

A remuneração de um deputado no país também é diferente. “Nós ganhamos CHF 480 (em torno de R$ 3 mil) por um dia de plenário e uma Comissão de duas horas fica em torno de CHF 200 (R$ 1,2 mil). Eu só ganho se eu participar, se estiver presente no dia da Comissão. Não é um salário, é uma indenização por um serviço prestado. Aqui a gente tem essa ideia de que a política significa também um pouco de voluntariado. Não é uma profissão, não ganha um salário”, explica.

Mas esses valores seriam altos ou baixos? Para facilitar a comparação, ela diz que o salário médio na Suíça fica entre CHF 5 mil (R$ 30 mil) e CHF 6 mil (R$ 35,8 mil). Uma pessoa que é caixa de supermercado, por exemplo, ganha quase CHF 4 mil. “Se eu for um dia inteiro no parlamento, eu ganho CHF 480. Não é uma indenização que substitui um salário, é uma ajuda de custo para que o fato de você se engajar na política não te prejudique. Se eu participar de várias comissões, ganho mais; se participar de menos, ganho menos. Em média, no ano, eu diria que ganho CHF 2 mil por mês”.
A brasileira em manifestação em Lausanne contra violência contra a mulher
A brasileira em manifestação em Lausanne contra violência contra a mulher © Gustave Deghilage

Poucos benefícios

O benefício que a Carine pode receber, como deputada, é o auxílio-transporte. Não existem outras regalias, como carro, moradia ou assessoria. “Eu tenho que pagar e ser reembolsada pelo serviço do Parlamento, se eu tiver que pegar um trem ou um ônibus para ir para um lugar mais distante”, explica Carine.

“Fora isso, não tenho benefício nenhum. Não tem gabinete, assessoria, auxílio-moradia, não tem nada disso, justamente porque a política é vista como um voluntariado, um serviço civil para prestar para a comunidade. A gente não deveria perder dinheiro sendo político, mas também é visto como algo que não fará que você ganhe mais dinheiro sendo político”, detalha.

“Quando eu quero fazer uma proposta, tenho que ir na Internet me informar,  ligar para as pessoas, para as associações e perguntar qual é o problema. Tenho que estar articulada, conhecer pessoas, pesquisar eu mesma. Sou eu sozinha para fazer essas coisas. É claro que a gente trabalha muito em equipe com os meus colegas de partido. Mulheres de vários partidos também trabalham juntas para escrever propostas para a questão da igualdade de gênero. Há colaboração e engajamento”, explica.

Política de berço 

Carine é de Fortaleza, no Ceará, e vem de uma família “muito politizada”, que falava bastante sobre o tema em casa. “Minha mãe e meu pai foram militantes, de sindicatos ou de partidos, e eu tive até um avô que foi deputado estadual no Ceará”.

Antes de ser deputada, Carine, que estudou Sociologia e tem especialização em Estudos de Gênero e mestrado em Administração Pública, foi vereadora em Lausanne, uma cidade suíça de 145 mil habitantes – considerada grande para o país, mas pequena para os padrões brasileiros. “A ideia de ser candidata, de me inscrever num partido, veio depois de ter tido filho. Você tem a sua primeira criança e começa a pensar no futuro que vai deixar para ela. E aí me deu vontade de ser mais ativa politicamente”.

Conciliar vida profissional, vida política e vida familiar é, aliás, um de seus desafios.“Na Suíça já é difícil conciliar, normalmente, porque faltam serviços como creche. Sempre falo da minha terceira jornada, que é a jornada política. Tem a de trabalho, a de mãe, e a política, mesmo tendo muito apoio e o melhor companheiro do mundo. Mas continua sendo um desafio”. Outro desafio é o da representatividade. “Sou uma mulher, migrante, não tem muita gente que parece comigo no Parlamento do meu cantão”.

“A maioria é homem, branco, de família suíça. Pessoas que se pareçam comigo, que tenham as mesmas preocupações são poucas. Tem, então, esse desafio de representatividade, de se sentir ouvido, de poder levar sua voz, porque não é fácil, discriminação existe em todos os países do mundo”.

Carine conta ter entrado para a política para “perseguir um objetivo de igualdade de gênero, de justiça social, de direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores,  e das questões da melhor integração dos migrantes.” Ela conta também que gostaria de ampliar a ideia de maior democratização dos estudos. “São questões que eu defendo bastante”.

Menos personalização

O que o Brasil poderia aprender com a Suíça na área da política? Para Carine, a experiência suíça é interessante porque é menos personalizada. “Você não tem política “showbiz”, em torno de um personagem forte, é mais um trabalho de grupo. Como todo mundo trabalha em paralelo à atividade política, é muito vinculada com a vida real. Você não cria essa torre de marfim da política distante das cidadãs e dos cidadãos, o que é interessante”.

No Brasil e na Suíça, o cargo de deputado, entretanto, é semelhante. “A missão é a mesma. Nós votamos as leis, os recursos públicos, fiscalizamos a ação do Estado. Outras coisas que são muito parecidas: também temos uma plenária, mesa diretora, comissões, bancadas. Essa organização do Parlamento é similar em vários países democráticos. Eu diria que o que é muito diferente é essa noção de profissionalização da política. Quando uma pessoa é eleita no Brasil, ela é só deputada, recebe um salário. Uma das diferenças principais com a atividade política no Brasil é que na Suíça a deputada ou o deputado não é um profissional da política”.

Política brasileira hoje

Questionada sobre a política brasileira nos dias de hoje, a deputada  disse que tem “muita gente de boa vontade, mas pouca fé popular nas instituições.” Segundo ela, “quanto mais as pessoas desconfiam das instituições, como os parlamentos ou as assembleias legislativas, mais as pessoas  serão alvos fáceis para políticos mal-intencionados. Acho que o que aconteceu no Brasil foi isso: por muito tempo, personagens políticos destruíram a fé que a gente tem na política”.

Ela gostaria que pessoas se interessassem mais pelo assunto. “Pela política institucional também: como funciona a assembleia legislativa, o Senado, de quem é a responsabilidade. Em quem foi que eu votei na última eleição? O que essa pessoa fez? Acho que é isso que a gente tem que cultivar mais no Brasil. Há um desafio muito grande na construção de uma nova classe política. Acredito que o próximo grande desafio é a reforma política no Brasil”.

Quando o assunto é o desempenho do governo Bolsonaro, a brasileira diz que se trata de um “desgoverno”, como alguns grupos dizem nas redes sociais.  “Acho um governo péssimo, não vou mentir, um desgoverno. É justamente a personificação dessa campanha de descrédito às instituições políticas. Ele encarna isso. Bolsonaro é um pouco o sintoma desse descrédito das instituições”.

Assuntos em pauta

Carine explica que o que se discute hoje é debatido em quase todo o planeta, como a questão climática e a gestão da pandemia.  “Nesse momento, a gente está vendo, por exemplo, de onde se compra material para construir as escolas. Vamos construir com material renovável ou não? Outra questão importante é isso que todo mundo está vivendo, a pandemia, a gestão sanitária da pandemia. A gente até se saiu bem aqui na Suíça, mas teve muito trabalho parlamentar para colocar a questão social na frente da questão econômica”.

 

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