“Sobreviver, neste momento, não é pouca coisa”, diz o psicanalista Christian Dunker

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Em conversa com BdF, professor da USP reflete sobre acervos pessoais e sobre como seguir em frente para descortinar 2021

Cristiane Sampaio
Brasil de Fato | Fortaleza (CE) |

‘Na psicanálise, a gente não concorda com a ideia de que ano bom é um ano feliz em que a gente não sofreu; sofrimento faz parte da vida’, afirma Dunker – Reprodução

Descoberta de um novo vírus, restrições de convivência social, confinamento, solidão, autodesenvolvimento, práticas de solidariedade, descompromisso com as medidas sanitárias, apatia moral ou trabalho voluntário. Como você teceu sua jornada ao longo deste ano? E como sobreviveu a este tão singular 2020? Qual o seu acervo pessoal ao final desta travessia?

Para o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker, o saldo do ano não é homogêneo, variando conforme as condições materiais e psíquicas de cada um. E sobreviver, neste momento, “não é pouca coisa”, diz ele.

“Significa não só se manter respirando, mas sobreviver psiquicamente, sobreviver com os nossos contatos, amores, amizades e, principalmente, com os nossos sonhos”, explica o professor.

Para um ano de tantos novos desdobramentos e surpresas, altos e baixos pessoais ou coletivos, o que fica agora é o entendimento de que, “apesar da dor”, há também o que se comemorar neste ponto da trajetória. É o que afirma Dunker, ao refletir sobre o comportamento humano.

“Na psicanálise, a gente não concorda com essa ideia de que o ano bom é um ano feliz em que a gente não sofreu e no qual tudo foram as mil maravilhas. O sofrimento faz parte da vida”, argumenta.

Dunker conversou com o Brasil de Fato sobre esse e outros aspectos que cercam este 2020 de tantos desafios coletivos, e aconselhou: “O importante é ver como nós conseguimos viver profunda e criativamente o sofrimento e também a felicidade”.

O psicanalista refletiu ainda sobre diferentes questões, como o medo, a angústia, os demônios internos de cada um e os eventuais refluxos que podem surgir posteriormente a partir de experiências psíquicas densas e sequelas psicológicas deste momento de pandemia. Também destacou as dimensões que fazem da conjunção entre vida pessoal e vida profissional uma esquina de difícil administração nestes tempos em que a boa saúde mental mais parece artigo de luxo.

Confira a seguir os principais momentos da entrevista.

Brasil de Fato: Este foi um ano em que muitos de nós ficamos em isolamento. Tem muita gente que, infelizmente, perdeu alguém querido para a covid-19, muitos de nós passamos mais tempo nas redes sociais justamente em virtude desse confinamento, o país vive um problema político de ordem sistemática – inclusive, em meio a uma duvida sobre se vai ter vacina, se não vai ter vacina, o que aumenta muito a nossa ansiedade. Cada vez mais, vemos psiquiatras, psicólogos e outros profissionais falando sobre a necessidade de se atentar para os desequilíbrios de ordem emocional e mental. O senhor acha que, com tudo isso, o ano de 2020 deixa alguma espécie de saldo preocupante em termos de saúde mental da nossa população?  

Tem consequências, sim, pra saúde mental e, como é algo muito afetado pelas questões sistêmicas – clima, trocas econômicas, relações familiares –, a gente pode dizer que o impacto não é homogêneo. Há pessoas que melhoraram, que encontraram nessa nova forma de mundo uma espécie de abrigo, de proteção contra situações de autoconflito, mas a regra, o conjunto da obra sugere que é um ano que vai deixar marcas em termos de sequelas psíquicas para os anos vindouros, não só para os próximos momentos desta travessia.

Mas, considerando os estudos que se tem sobre os efeitos da quarentena, a gente sabe que eles podem gerar estresse pós-traumático, retornos depressivos às vezes anos depois do que aconteceu. É uma mutação que deve interferir, por exemplo, na interpretação do espaço pessoal, da distância física e psíquica que a gente guarda em relação aos outros.

É uma transformação que, por exemplo, instala a suspeita, o medo de contágio, assim como levanta a raiva, a indignação diante daqueles que não tomam as providências de proteção para todos nós, aqueles que veiculam notícias, humores e atmosferas paranoicas ou de incerteza. São efeitos que vão ficar com a gente porque eles interferem, criam marcas de memória, de história que vão acompanhar essa tramitação do sofrimento pelo qual a gente passou este ano.

O medo se destaca como um sentimento muito presente neste momento coletivo que a gente vive – medo de perder alguém, medo de adoecer, medo de perder o emprego e se ver sem perspectiva, etc. O senhor fala um pouco sobre esse sentimento no seu recente livro “A arte da quarentena para principiantes”. O medo pode ser considerado uma reação natural a uma situação nova da vida, como esta atual?

Natural, esperada e, quando não vem, a gente se preocupa. A gente está diante de um perigo real e uma característica deste perigo é que ele é invisível. A gente sabe que tem um vírus, mas a gente não tem a imagem muito bem delineada e, portanto, a gente não consegue localizar exatamente onde está, como está, se ele vem nas compras, se vem num aperto de mão ou num abraço.

Esse caráter invisível, intangível do vírus atrapalha para que a gente mantenha o medo dentro dos seus limites e dentro da sua função. O medo, como todas as emoções, tem uma utilidade. Ele serve pra gente detectar o nível de periculosidade, perceber bem o objeto que causa esse perigo e nos instilar a agir, seja no sentido de atacar, seja no sentido de recuar e se proteger em relação àquele perigo.

Então, o medo é uma instância, no fundo, de colocação da inteligência, da informação, de juízo, de apreciação da realidade da situação. Isso é muito importante a gente ter, ainda que certas pessoas estejam, em geral, brigando com a condição do medo. São aquelas pessoas que sentem assim “eu não posso ter medo porque ter medo é uma fraqueza, revela que eu sou uma pessoa vulnerável” ou então “eu vou atacar esse afeto, eu vou me impedir de ter esse afeto”.

Aí a gente já tem o nascimento de certos negacionismos e de uma atitude tola, que é aquela que vai ignorar, que vai dizer assim ‘eu tenho, no fundo, tanto medo, tenho tanta inépcia pra enfrentar o medo ou eu não consigo reconhecer o medo, que eu passo por cima dele, eu finjo que não há nenhum objeto de perigo, eu nego a realidade’.

Esse caráter invisível, intangível do vírus atrapalha para que a gente mantenha o medo dentro dos seus limites e dentro da sua função

O que tende a acontecer aí é que aquele medo que é negado vai fazer cócegas, vai ativar um outro tipo de ‘medo’, vamos pôr agora entre aspas, que é o medo das nossas fantasias, das nossas experiências íntimas, dos nossos quartos secretos, dos nossos estrangeiros que nos habitam. E esse medo a gente chama de “angústia”.

Então, muito frequentemente, o trabalho de elaboração da realidade pela via do medo vai se assoreando, vai se complicado, vai ficando mais pesado e vai esgotando as energias físicas das pessoas porque ele se entranha com a angústia.  E a angústia não se resolve com você olhando melhor pra um objeto, se informando melhor sobre ele, decidindo atacá-lo ou então fugindo.

A angústia requer outro tipo de prática porque diz respeito a quê? Às nossas fantasias, diz respeito a como é que nós estamos olhando pra nós mesmos, como é que nós conhecemos nossos demônios, como é que nós enfrentamos aquilo de que a gente não quer saber e nós mesmos.

E isso que volta neste momento junto com o medo, provocando uma série de transtornos. A angústia, quando volta, pode tornar a gente irritado, violento, mais propenso ao consumo de álcool e outra substâncias psicotrópicas, pode tornar a gente mais inclinado a impulsões, compulsões, reatividades, enfim, e desencadear novos sintomas, aí, sim, transtornos psíquicos propriamente caracterizados.

Diante deste contexto que temos vivido, com tanta gente falando sobre isso, inclusive pacientes e pessoas em tratamento trabalhando esses aspectos da vida, o senhor acha que nós passamos a olhar com mais cuidado para a nossa saúde mental este ano ou estou enganada?

Acho que sim, houve uma consciência mais clara porque a saúde mental das pessoas saiu muito abalada. Então, a gente tem que reconhecer o esforço dos meios de comunicação, das redes sociais, das redes de solidariedade que pautaram a importância de a gente cuidar da nossa vida psíquica durante este tempo.

Isso no Brasil, mas também fora do Brasil, é uma preocupação que pega carona, digamos assim, numa preocupação já antecedente com a saúde mental especialmente nas grandes metrópoles, que já vinha caótica, que já vinha com números crescentes de depressão, ansiedade e suicídio, mas que agora adquiriu, então, um novo impulso e uma nova valência.

 Quando a gente aumenta o nível de conflito, a gente aumenta o nível de demanda para o trabalho psíquico

A importância de cuidar da saúde mental ficou escancarada na prática, com as pessoas tendo que se haver com conflitos que são, em geral, geradores de sofrimento – entre pais e filhos presos dentro de casa, entre maridos e mulheres, entre cônjuges em geral, entre empregados e trabalhadores.

Ou seja, todas as situações que habitualmente são atravessadas por conflitivas tiveram essas conflitivas, em geral, intensificadas. Quando a gente aumenta o nível de conflito, a gente aumenta o nível de demanda para o trabalho psíquico, pra manter um certo nível de salubridade ou de sobrevivência psíquica.

Alguns se saíram melhor do que outros nessa tarefa. Alguns tiveram também mais apoio, mais escuta, mais compartilhamento de afetos, mais coletividade, mais reconhecimento de limitações, mais recursos que outros. E aí eu estou falando de recursos psíquicos, simbólicos, não só materiais.

Estamos vivendo um novo tempo. O vírus está aí, ele não foi embora, apesar de muitos ignorarem as recomendações sanitárias e o alto número de mortes no país, e temos a necessidade de conviver com algo que a gente não vê, materialmente falando, e que ainda pode tirar muitas vidas e potencializar este momento difícil em termos de política e saúde mental coletiva. Pra encerrar a entrevista, eu lhe pergunto: como dar sentido a este novo tempo e, claro, sobreviver, pra enfrentar 2021?   

Essa palavra que você usou é muito feliz, “sobreviver”. De uma forma ou de outra, podemos começar esta conversa lembrando que sobrevivemos. Não é pouca coisa. “Sobrevivemos” significa não só se manter respirando, mas sobrevivemos psiquicamente, sobrevivemos com os nossos contatos, com os nossos amores, com as nossas amizades e, principalmente, com os nossos sonhos.

É um momento difícil, mas é um momento que tem um passado às nossas costas e a gente olha pra frente e pode contar com uma espécie de bônus que foi criado pela própria travessia. Esse bônus, pra uns, é maior; pra outros, é menor.  Houve aquele que, debaixo do cobertor, ficou esperando isso tudo passar. Teve outro que abriu a janela do seu sofrimento para o coração alheio, que foi fazer uma quentinha, foi trabalhar ajudando o pessoal em saúde publica.

‘Sobrevivemos’ significa não só se manter respirando, mas sobrevivemos psiquicamente, […] com os nossos sonhos

Resultado: a gente tem também aqueles que formaram, nesse percurso, também um certo acervo de solidariedade, um certo acervo de relações, um certo acervo cognitivo, aqueles que se dedicaram a usar a cultura, os livros, as experiências anteriores pra fazer frente a essa experiência que a gente estava enfrentando agora, as famílias que se reorganizaram pra cuidar de filhos pequenos, pra cuidar de pessoas idosas, pessoas que se reuniram pra mitigar o luto de tantas famílias que perderam pessoas.

Ou seja, há muita coisa positiva neste ano, apesar da dor, do sofrimento, da pena, há muita coisa positiva. Na psicanálise, a gente não concorda com essa ideia de que o ano bom é um ano feliz e que a gente não sofreu e no qual tudo foram mil maravilhas. O sofrimento faz parte da vida, ele vai se impor de uma forma ou de outra e o importante é ver como nós conseguimos viver profunda e criativamente o sofrimento e também a felicidade.

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