Trabalhadores e hack-criadores, uni-vos!

7

Para uns, tudo baseia-se em solidariedade e igualdade. Para outros, consciência de classe sempre se ajusta ao desejo de ser diferente, ao relevo e reconhecimento. Poderão enxergar-se um dia como sujeitos distintos, mas com projeto comum?

Por Mckenzie Wark, na DIS Magazine*| Tradução: Antonio Martins

Quero começar com o postulado de que em lugares como Nova York vive-se em um mundo superdesenvolvido. De alguma forma, saltamos um certo grau de transformação. Uma transformação que não aconteceu, ou que talvez não pudesse ter acontecido. Mas devido ao fato de termos pulado essa saída, acabamos em uma espécie de superdesenvolvimento. No mundo superdesenvolvido, a economia mercantil alimenta-se de si mesma, se canibaliza.

É claro que existe um mundo subdesenvolvido, às vezes muito próximo do superdesenvolvido. Pode até ser encontrado em Nova York. Pode-se criticar o orientalismo de que Willets Point, no Queens, seja conhecido entre os nova-iorquinos como ‘little Calcutá’ [pequena Calcutá], mas a verdade é que é um lugar sem ruas asfaltadas ou água encanada e com a maioria dos empregos nas sombras, ilegais ou precários.

Mas você esquece que este mundo subdesenvolvido existe se vive na bolha do superdesenvolvido. Pelo menos alguns de nós não precisam fazer a versão manual do trabalho precário. Mas, em algum sentido, várias das características deste tipo de trabalho conseguiram deslizar para o mundo superdesenvolvido.

Visto de dentro da bolha que é Nova York, o paradoxo atual do trabalho digital está na maneira como a tecnologia permite o superdesenvolvimento do subdesenvolvimento. As lutas pela configuração das tecnologias são o que as determina. Não estava na natureza do digital que acabasse controlando o trabalho, em vez de ser controlado por ele. Mas no atual estágio de conflito e negociação, o superdesenvolvimento do subdesenvolvimento parece estar se consolidando como uma tendência no setor de trabalho.

De qualquer forma, a classe trabalhadora não é a única que luta no e contra o mundo digital. Mesmo assim, acho que ser trabalhador não é o mesmo que ser hacker. Penso nos hackers como uma categoria de classe: há uma classe hacker. Hackers são aqueles cujos esforços são comercializados como propriedade intelectual. O que eles fazem pode se tornar propriedade intelectual, patentes ou marcas registradas.

A classe hacker é diferenciada por alguns atributos. Geralmente envolvem trabalhar com informações, mas não de forma rotineira. É diferente do trabalho de colarinho branco. Trata-se de produzir novas configurações de informação ao invés de “preencher formulários”.

Pode ser um pouco difícil tornar este trabalho uma rotina. Coisas novas não aparecem na hora certa. Não se elas forem realmente novas. Existe um tipo de “inovação” que na verdade é bem próximo da rotina, e a classe hacker também se envolve nisso. É a nova campanha publicitária, o novo aceno ao antigo processo técnico, a nova música, aplicativo ou script. Mas os grandes saltos qualitativos são muito mais difíceis de atrelar às formas de trabalho rotineiras e reificadas.

A classe dominante de nosso tempo, que chamo de classe vetorial, precisa desses dois tipos de hacking. A classe vetorial requer inovação quase rotineira. Os ciclos de mercantilização de hoje exigem isso. À medida que nossa atenção se desvanece e o tédio se aproxima, torna-se necessário fazer pequenas modificações nas antigas fórmulas: algum novo show, uma nova aplicação, um novo medicamento, um novo mecanismo.

O que é interessante neste momento são as estratégias implementadas para dividir o custo e reduzir o risco dessas inovações rotineiras. Acho que a cultura de start-ups consiste basicamente nisso. Fracionar e privatizar o risco e, ao mesmo tempo, proporcionar acesso privilegiado à inovação, que passa a demonstrar o valor que tem para a classe vetorial, cujo “modelo de negócio” é possuir, controlar, inverter, litigar e, se for absolutamente necessário, até criar novos formas de propriedade intelectual.

Os outros tipos de hacks, os verdadeiramente transformadores, são outra questão. Até certo ponto, a classe vetorial não quer de saber nada sobre o último, além do que a ideologia dominante diz sobre a ruptura. A vida com disrupções é para os medíocres. A classe vetorial não gosta de surpresas. Seu objetivo é se tornar a coisa mais próxima a um monopólio de algo que pode gerar lucro.

O tipo de modo de produção em que parecemos estar entrando não pode, eu acho, ser considerado inteiramente capitalista, pela descrição clássica. Isso não é capitalismo, é algo pior. Vejo a classe vetorial como a classe dominante emergente de nosso tempo, cujo poder está em tentar dirigir todo o processo de produção por meio da propriedade e do controle da informação. No mundo superdesenvolvido, uma infraestrutura de informação, como uma espécie de terceira natureza, agora prevalece sobre a antiga infraestrutura de manufatura e distribuição, ou segunda natureza, que por sua vez domina os recursos deste planeta. É assim que a própria natureza se apresenta a nós hoje.

As estratégias de comando da classe vetorial são baseadas no acúmulo de ações, fluxos e vetores de informação. A classe vetorial converte a informação em propriedade, em assimetria, desigualdade e controle. Lucra com a privatização da informação, como um monopólio, enquanto minimiza ou desloca riscos.

Uma das estratégias é socializar o risco do hack real. É possivelmente por isso que as universidades públicas e a pesquisa com financiamento público ainda existem, porque o contribuinte pode se arriscar com uma pesquisa verdadeiramente básica. O modelo do parque de pesquisa universitário é configurado para modular cuidadosamente o acesso a informações sobre qualquer coisa que possa ser considerada propriedade de valor.

Outra estratégia é o que poderia ser chamado de autodisrupção. Tendo aprendido com os erros das antigas empresas capitalistas da era industrial, esse modelo traz a prática hacker para dentro de sua organização. As empresas que operam com extração de renda tornam-se acumuladoras de propriedade intelectual potencialmente monetizável, ou de pessoas que parecem ser capazes de produzi-la. Essa estratégia é implementada apenas se a disruptura operar em maior grau na empresa de outra pessoa do que em sua própria.

E essa é a classe vetorial. As desvantagens de pertencer à classe hacker em um mundo governada pela classe vetorial são as seguintes: primeiro, certas formas modestas de hacking caem em uma economia de terceirização informalizada, ou mesmo amadora. Algumas competências se espalharam de tal forma que é impossível extrair valor delas como habilidades de trabalho. Certos modelos de localizadores de talentos, baseados em algoritmos ou distribuídos, funcionam como se você tivesse contratado o profissional mais capaz para escolher a pessoa certa de que precisa.

Em segundo lugar, um grupo de hackers mais numeroso poderia ditar seu próprio preço no mercado, e alguns poderiam até terminar possuindo parte do que produzem. Mas torna-se cada vez menos provável que alguém acabe possuindo o produto total. Muito mais provável é que você seja, quando muito, um acionista menor em seu próprio cérebro.

Naturalmente, a situação dos trabalhadores é ainda pior do que a dos hackers. A mercantilização da vida e do mundo corrói a cultura tradicional de solidariedade e igualdade. Tudo se torna um jogo, com vencedores e perdedores. O mundo da terceira natureza, esse mapa de dados borgeano que cobre a totalidade exata de seu território, está quase literalmente programado para ser antissocial.

Na vida cotidiana, pode haver uma continuidade de experiência entre ser trabalhador e ser hacker. Como não são categorias absolutas do ponto de vista da experiência, pode-se transitar de uma para outra, e ambas podem encarnar formas precárias de ganhar a vida. O homem branco, “bro-grammer’, uma espécie de “macho-programador”, não é o único tipo de hacker, assim como o operário da construção não é o único tipo de trabalhador.

Para o trabalhador e para o hacker, alcançar algum tipo de consciência de classe e, acima de tudo, uma consciência social ainda mais ampla, constitui uma verdadeira luta contra o estado de atomização afetiva de nossa época. Só não acho que seja o mesmo tipo de consciência de classe.

Para a classe trabalhadora, tudo é uma questão de solidariedade e igualdade. Para os hackers, a consciência de classe sempre se ajusta ao desejo de ser diferente, à distinção, ao reconhecimento dos verdadeiros colegas. É uma sensibilidade que se reflete no individualismo revelado pela classe vetorial, mas não é exatamente a mesma coisa. Ganhar no cassino financeiro não é o mesmo que ganhar o respeito de seus colegas. Nem se traduz em qualquer poder de moldar o mundo.

Não deveria nos surpreender se o mundo que este trabalho e esses hacks estão construindo não dure. Você poderia até dizer que esta civilização não existe mais. As condições materiais que a sustentam estão se deteriorando. Mesmo que contribuamos com o mundo com algum trabalho ou hackeamento, é como se continuássemos a construir castelos de areia à medida que a maré sobe.

Isso é o que o Antropoceno significa: que o futuro do mundo humano e do mundo material estão totalmente interligados. Da mesma forma que Nietzsche declarou a morte de Deus, agora sabemos que a ecologia está morta. Não existe mais um ciclo homeostático que possamos corrigir retirando-o. Não há ambiente que seja o pano de fundo natural sobre o qual trabalhar e invadir.

Assim como a categoria do “ser humano” entra em colapso quando não há mais Deus, a categoria do social também entra em colapso quando não há meio ambiente. O mundo material é tecido com traços do humano, e o humano acaba por ser feito de não muito mais do que fluxos deslocados de um ou outro elemento ou molécula.

O dogma que afirma que “a realidade é uma construção social” não é exatamente falso, mas vazio de significado. O que todos os trabalhadores e hackers do mundo estão construindo é apenas outra forma do mesmo mundo impossível e inexistente. Estamos construindo a terceira natureza como hiper-realidade.

Surgem, então, duas tarefas. A primeira é pensar os trabalhadores e os hackers como sujeitos de classes diferentes, mas com um projeto comum. A segunda é pensar esse projeto comum como a construção de um mundo diferente. Esta plataforma que continuamos a construir, esta segunda e terceira natureza, pode servir de plataforma para erguer uma nova, que possa ser hackeada?

É uma perspectiva avassaladora. É por isso que cheguei à obra de Alexander Bogdanov, Ele pensou que isso poderia ser feito. Às vezes é bom ter ancestrais, mesmo que sejam tios estranhos ou tias excêntricas e não patriarcas. Bogdanov rivalizou com Lenin pela liderança do partido bolchevique. Expulso do partido por volta de 1910, ele se voltou para dois projetos que ficaram conhecidos como tectologia proletkult .

Penso na tectologia de Bogdanov como um projeto de auto-organização de trabalhadores e hackers que usaria o meio qualitativo da linguagem em vez do meio quantitativo de troca como um modo de transmissão de formas, ideias ou diagramas, de um problema de concepção para outro. Poderia haver uma arte de compartilhar o que funciona? Poderia um hack decorrente de um problema de projeto ser proposto especulativamente como uma possível forma ou guia para outro? A tectologia de Bogdanov é como uma plataforma de desenvolvimento colaborativo ou GitHub filosófico.

Penso na proletkult de Bogdanov como um projeto de produção cultural autônoma de trabalhadores e hackers. Bogdanov tinha uma teoria da ideologia positiva, não negativa. Todos nós precisamos de uma afetividade, de uma história, de uma estrutura sentimental que nos motive e realmente nos conecte. Existe algo que nos move e nos une, além da inveja, ganância, ressentimento, raiva ou qualquer um dos anzóis deste mundo ludopático mercantilizado, hiper-real? Pode haver outras cosmovisões e cosmovisões de outros?

De certa forma, a tectologia encarna o trabalho, e proletkult o aspecto lúdico de construir um mundo real nas fendas e fissuras desse irreal que nos rodeia. A tônica, para Bogdanov, foi que esse projeto teria que ser cooperativo, colaborativo e baseado na visão de mundo de hackers e trabalhadores, que se diferenciaria tanto do autoritarismo quanto do mercado.

Temos que pensar em como as coisas funcionam sem supor que haja algo ou alguém no comando, um árbitro definitivo como Deus, mesmo que ele seja o Deus hipercaótico do realismo especulativo. E também temos que pensar em como as coisas funcionam sem imaginar que há apenas um punhado de mônadas fragmentadas competindo umas com as outras, para as quais a ordem ideal emerge e se organiza magicamente.

Precisamos de outra cosmovisão, resgatada do que resta das práticas manifestamente comuns, coletivas e colaborativas a partir das quais o mundo é construído e realmente funciona. Isto é, uma cosmovisão da solidariedade e da dádiva. Uma cosmovisão que funcione como uma teoria traçada a partir das práticas de hackers e trabalhadores, em vez de uma teoria superior, que tente legislar sobre estas práticas de cima.

Não é difícil entender o que exasperou Lenin em Bogdanov. Para ele, proletkult e tectologia eram práticas experimentais, protótipos de ideias e de coisas que testou, que modificou. Ao contrário de Lenin ou Lukács, não existe uma teoria definitiva, correta e dominante na obra de Bogdanov. O que há é algo mais próximo de uma ética hacker, mas sem a carga autoritária que ainda pode ser encontrada em um Lênin ou um Lukács, ou na paródia de Zizek, que não questiona aqueles comandam a cosmovisão materialista dialética estabelecida.

Na perspectiva de Bogdanov, não existe um discurso mestre que controle todos os outros. O que existe é um continuum de práticas, das ciências naturais à arte e cultura, passando pela engenharia e design. A parte de ciência e design é principalmente coberta pela ideia de tectologia; o da arte e da cultura, pelo proletkult. Mas eles se sobrepõem, e ambos são importantes.

Penso que a mente aberta de Bogdanov nas ciências naturais, engenharia e design é muito contemporânea. Conhecemos coisas como mudança climática (e outros sinais do Antropoceno) apenas por meio das ciências naturais. Sem o hackeamento do conhecimento global que é a ciência do clima, literalmente não saberíamos o que diabos está acontecendo ao nosso redor. Por que essas secas, essas enchentes, essas estranhas mudanças na variedade de espécies, suas extinções repentinas ou o crescimento excessivo de suas populações? Nada disso faria sentido.

Nem Heidegger nem Adorno têm nada a dizer sobre isso. Mas, curiosamente, entre 1908 e 1920, Bogdanov praticamente elucidou sozinho a mudança global. Ele entendeu algo sobre o ciclo do carbono. Ele entendeu a necessidade de pensar sobre a influência do trabalho social na natureza, dentro dela, com ela e contra ela, e como ele produz uma segunda e até uma terceira natureza. Ele concebeu a necessidade de construir uma infraestrutura que se adaptasse às mudanças à medida que agisse de acordo com as condições de sua existência.

Lenin liderou uma campanha vigorosa para excomungar Bogdanov – uma campanha que, surpreendentemente, a tradição marxista nunca revisitou ou tentou reverter. Isso é, entre outras coisas, uma grande injustiça. O marxismo experimental e inconclusivo de Bogdanov, que não tenta dominar, ignorar ou subordinar-se às ciências naturais, tornou-se uma extravagância. Seu análogo contemporâneo mais próximo é, eu acho, Donna Haraway . É, ao menos, o que argumento em Molecular Red.[Vermelho Molecular]

DEIXE UM COMENTÁRIO

Comentário
Seu nome